Sem categoria › 07/08/2016

TRATADO ESPIRITUAL: A GRANDEZA DA NOSSA VOCAÇÃO

INTRODUÇÃO A «GRANDEZA DA NOSSA VOCAÇÃO»

Embora o Último Retiro seja anterior em alguns dias às páginas que se vão ler, o colocamos, contudo, em terceiro lugar, porque reunirá o timbre particularmente místico do Céu na Fé e o tom ascético de A Grandeza da nossa Vocação.

Este «tratado espiritual», de setembro de 1906, destina-se a uma jovem de Dijon: Francisca de Sourdon, de dezenove anos de idade. Uma longa amizade a une a Elisabete, como o testemunham as vinte e seis cartas que ela lhe dirigiu ao longo de mais de oito anos[1].

Elisabete reconhece-se um pouco na jovem Francisca: «tens a mesma natureza que a minha, sei o que podes fazer» (C 98). Contudo, Francisca não sabe orientar tão bem a sua vitalidade e Elisabete, várias vezes, tem amigavelmente de a chamar à ordem.

Uma diferença de idade de sete anos dá à amizade de Elisabete um aspecto particularmente maternal e, já carmelita, de bom grado se apelida a «mãezinha» de Francisca (por exemplo, C 98, 128). Se reconhecerá esta nota de ternura nas páginas que se seguem, a sua última carta, com a alteração do nome («Framboise» ) e o tratamento por tu. Se, por um lado, os testemunhos nos descrevem uma jovem um pouco caprichosa que se agarra a Elisabete antes da sua Profissão, por outro lado, esta não nutria uma menos viva simpatia pela jovem, quando se lhe referia «Que ‘pessoa’ formidável!”» (C 178).

Aqui, como no CF, a Carmelita sofredora não perde de vista a destinatária, o que dá a estas páginas duas particulares características adaptadas à personalidade de Francisca.

Em primeiro lugar, um tom de magnanimidade e Elisabete acha que o melhor de Francisca ainda não chegou, e que ela é capaz de o alcançar. Já tinha quatro anos lhe escrevera: «Compreendo que tenhas necessidade de um ideal, isto é, de qualquer coisa que te faça sair de si mesma para elevar-se mais além. Mas repara, não há senão Um, é Ele, o único Verdadeiro! Ah, se tu o conhecesses apenas um pouco como a tua Elisabete! Ele fascina, eleva, sob o seu olhar o horizonte torna-se tão belo, tão vasto, tão luminoso (…). Queres, minha querida, dirigir-te comigo em direção a este sublime Ideal? Isto não é uma ficção, mas uma realidade» (C 128).

Seguidamente, uma nota ascética, porque Francisca não possui a maturidade e a riqueza interior de Guida. Deve ainda conquistar-se a si mesma. Elisabete não pode lhe expressar do mesmo modo os seus íntimos desejos de união mística. De resto, as «perguntas» (GV 2), feitas por Francisca, orientaram um pouco a resposta. Se a exposição é mais ascética, e por isso serve como um bom complemento ao CF, o fim proposto permanece igualmente elevado.

A carta a Francisca torna-se uma longa meditação, um pequeno tratado[2]: «Tratemos, em primeiro lugar…», começa Elisabete com um tom estudado (GV 2).

Estas páginas giram em torno do eixo humildade-magnanimidade. A humildade conduz-nos ao esquecimento de nós mesmos, à morte do homem velho, para nos tornar livres, felizes e semelhantes a Cristo. Conscientes da nossa «grandeza» (GV 4) seguiremos Cristo, nossa imagem e modelo, e, associados à sua paixão pela Igreja, poderemos aproximar-nos da «nossa eterna predestinação» (GV 9).

Por causa dos horizontes que se abrem, intitulamos estas páginas: A Grandeza da nossa Vocação. Um ano mais cedo, Elisabete já escrevia: «Oh! Framboesa, como estamos ricas dos dons de Deus, predestinadas à adoção divina, e por consequência herdeiras da Sua herança de glória!» (C 238). Poucos dias antes, falava ainda da «grandeza» «desta vocação» (UR 36).

É por volta do dia 9 de Setembro de 1906[3] que Elisabete preenche «em vários dias», a lápis, essas três folhas quadriculadas dobradas em duas[4]. Sobretudo para o final, a letra acusa o seu esgotamento físico. Encontra-se já «numa fraqueza extrema; sinto-me a todo o momento desfalecer». Mas se notará uma ponta de humor, quando qualifica a sua longa carta como «diário[5]». Ao sentir que a sua ainda jovem vida está a ser ceifada — usa mesmo a imagem da «foice» —, a fé lhe diz que é «o amor» que a consome (GV 7). A dois meses da sua morte, na enfermaria, escreve: «Sinto-me já um pouco no Céu na minha pequena cela, a sós e apenas com Ele, carregando a minha cruz com o Mestre» (GV 13).

 

[1].  A primeira é a C 16, do dia 9 de Agosto de 1898.

[2]. Tal como o Ms B de Teresa de Lisieux era originalmente uma carta para sua irmã Maria… As Recordações, desde a primeira edição, dão uma atenção especial a «esta bela carta», citando-a integralmente, pp. 222-228. O P. Philipon, nos seus livros, faz também dela um capítulo à parte [cf. M. M. PHILIPON, O.P., Écrits Spirituels d’Élisabeth de Ia Trinité – (Lettres, Retraites et inédits présentés par le R. P. Philipon, O.P., Paris, Seuil, (Col. «La Vigne du Carmel»), 1949′; 1981 reed.; pp. 168-176 (sob a epígrafe:) «Le secret de la Sainteté) ; Id., En présence de Dieu. Elisabeth de la Trinité, Paris, Desclée de Brouwer, («Présence du Carmel», 7), 1966].

[3] Cf. C 310, n. 1. De notar a grande semelhança entre as sete primeiras linhas de GV 7 com a C 309 [a sua mãe], igualmente escrita por volta do dia 9 de Setembro.

[4]. Duas folhas de 26,8 x 21,5 cm e um fragmento de 26,8 x 14,6 cm. Dobrando-as em dois, Elisabete obtém, pois, doze páginas. – A nossa numeração conduziu-nos a fazer parágrafo antes dos números 2, 3, 5, 6, 7, 8, 10, 11 e 12.

[5]. Mesma qualificação para a longa e bonita Carta 298 a Guida do dia 16 de julho de 1906.

 

Frei José Claudio, ocd

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