Santos do Carmelo

santosDE TERESA DE AHUMADA A TERESA DE JESUS

Teresa de Ahumada nasceu no dia 28 de março de 1515. Dentre 11 irmãos, foi a mais inteligente e agradável. Ainda pequena, Teresa tinha o desejo de ter uma morte rápida para gozar mais cedo dos bens celestes. Movida por tal desejo, decidiu partir para as terras dos mouros com seu irmão Rodrigo, a fim de lá morrerem juntos, mas não chegou até lá, pois logo sentiram sua falta e foram procurá-la trazendo-a de volta à casa paterna. Começou a pensar na possibilidade de ser religiosa e decidiu entrar para o mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação em Ávila, Espanha (das monjas Carmelitas), mesmo contra a vontade de seu pai.  Nesse mesmo mosteiro, já se encontrava uma de suas amigas, Joana Soares, por quem ela tinha muita estima. A partir de então, ela determinou-se a entrar, pois Joana muito lhe inspirava coragem.

Movida por uma força interior, Teresa decidiu-se e ingressou na Ordem do Carmo, tomando o hábito da Ordem com apenas 19 anos de idade. Ali, ela passou 20 anos de sua vida até que, inspirada e impulsionada pelo Senhor, resolveu seguir uma vida de maior perfeição, dando início à reforma do Carmelo. Quando a Igreja proibiu a edição das Sagradas Escrituras em outras línguas por conta do protestantismo, Teresa se sentiu muito temorosa, e certo dia o Senhor mesmo lhe contentou dizendo: Não se preocupe. Eu serei seu livro vivo. Ao ouvir isso, a Santa começa a ter um desejo ainda mais forte para renovar a Ordem e, com muita determinação, começou a pensar como realizaria tal empreendimento, mas ela não estava só! Ao seu lado, tinha Sempre presente a Santíssima Virgem Maria, seu esposo São José e Nosso Senhor Jesus Cristo.

Com tão grande companhia, nada poderia temer essa grande mulher. Ela percebeu que esse empreendimento era obra do Senhor, quando, em certo dia, na santa missa, depois de ela receber a santa comunhão, ouviu a voz do Senhor que lhe falou, prometendo que o mosteiro não deixaria de ser feito e que ali Nosso Senhor seria muito bem servido. Ele, ainda, disse que o mosteiro deveria ser dedicado a São José, esse glorioso santo lhe guardaria uma porta; Nossa Senhora guardaria a outra, e Cristo andaria ao lado dos que neste lugar o servisse, pois a casa seria uma estrela da qual sairia um grande resplendor.

Com coragem e determinação, Teresa reformou a Ordem do Carmo. Ela o fez retirando as sandálias dos pés para tocar o solo sagrado que o Senhor mesmo havia-lhe confiado, tomando por nome Teresa de Jesus, descalçando também todos que desejassem entrar para essa nova família Carmelitana. Reformou não só as monjas, mas também os seus filhos, os frades, a quem deu o nome de descalços, assim como as monjas, que juntos formam uma só família no coração da Igreja. A Santa Madre Teresa, como é chamada pelos frades e monjas, fundou 17 mosteiros de monjas. Quanto aos frades, orientou o Frei João de São Matias, da antiga observância, que recebeu o nome de Frei João da Cruz, a fazer a reforma entre os frades.

Depois das 17 fundações, já com a saúde muito debilitada, desejou, até o fim, fazer a vontade de Nosso Senhor, percorrendo estradas em favor de sua Divina Majestade. Contou com a ajuda de sacerdotes e amigos para realizar as fundações que fizera.  Essa grande mulher amou tanto que teve o coração transpassado por um dardo, o que muitos chamam de transverberação. Ela bem entendeu que era Deus que, por meio de um querubim, inflamava-a com seu amor. A dor sentida é, no entanto, tão suave que leva a santa a se “sentir abrasada pelo amor de Deus”(Vida ).

Santa Teresa morreu aos 67 anos de idade, no dia 04 de outubro 1582, em Alba de Tormes, depois de passar 20 anos em família, 27 no convento de Nossa Senhora da Encarnação e os últimos 20 anos de sua vida, como líder, fundadora e escritora.  É importante sublinhar que ela mesma redigiu sua autobiografia, além de outras obras, a pedido de seus confessores, deixando um grande legado para a Santa Igreja de Cristo e para todos os filhos do Carmelo Descalço. Amante da literatura desde sua infância, Santa Madre Teresa deixou seu legado composto pelas seguintes obras:

  • Autobiografia ou Livro da Vida
  • Caminho de perfeição
  • Castelo interior
  • As fundações
  • Conceito de amor de Deus
  • Exclamações da alma a Deus
  • Modo de visitar os conventos
  • Correspondências ou Cartas
  • Poesias

Santa Teresa foi beatificada em 1614, canonizada em 1622 e proclamada doutora da Igreja em 1970 pelo Papa Paulo VI.

Em 28 de março de 2015, iniciaremos as celebrações do V Centenário de seu nascimento com a Oração Mundial pela Paz, realizada pelo Papa Francisco. Tais celebrações se prolongarão ao longo do ano e serão finalizadas com a grande solenidade no dia 15 de outubro deste mesmo ano.

Por: Ronan Silva e Bruno Costa

 

São João da CruzDo nada ao tudo: o caminho de um místico

A pobreza. Esta é a marca de toda a vida de João da Cruz. Pobreza que primeiro o abraçou e que depois fora por ele abraçada como valor de quem achou um grande tesouro, pelo qual tudo o mais é menor.

João era o seu nome. Yepes seu sobrenome de família, carregado de algo que lhe constituiu a única herança deixada por seu pai: a escolha entre o amor e a riqueza. De fato, Gonzalo de Yepes preferiu as riquezas das qualidades íntimas de sua esposa, Catalina Alvarez, mãe de João, que lhe garantissem uma vida intensa, que a herança de seu pai, negada a ele por casar-se com uma jovem plebéia, sem recursos. João era filho de um nobre, cujo gesto mais nobre foi o de preferir Catalina às riquezas que a nobreza lhe garantiria. Um nobre gesto, sem dúvida. Juntos Gonzalo e Catalina iniciaram sua vida matrimonial trabalhando como tecelões, para triunfar sobre a miséria.

Nascido em Fontiveros, povoado de Ávila, na Espanha, em 1542, João de Yepes perde o pai dois anos depois. Para sustentar seus três filhos, a mãe de João, o caçula, tendo-o ao colo, peregrina por várias cidades, mendigando ajuda aos parentes ricos de seu falecido esposo, sem sucesso. Passa por Toledo, volta a Fontiveros, estabelece-se em Arévalo e fixa morada definitiva em Medina del Campo em 1551. João tinha 9 anos, quando é acolhido em uma espécie de orfanato para meninos pobres. Ali recebe os primeiros estudos e os meios para sobreviver. Perto dali freqüenta um hospital, onde atende os doentes e recebe ajuda para casa.

Esta é, em poucas linhas, o início da vida de João, marcado pelas privações de todo tipo. Poderia um ser nestas circunstâncias ter sucumbido à ganância de querer ter o que lhe faltou, numa tentativa de superar, com um pouco de revolta, o infortúnio que a vida lhe preparou. No entanto, para João da Cruz a pobreza em que ele viveu deu-lhe a chave para as suas grandes experiências no caminho de Deus. É por ela que conseguimos compreender a noite, a negação, o nada. A privação lhe fez com que adquirisse naturalidade nos exercícios humildes. Um grande estudioso de São João da Cruz disse que “ainda quando houve maior mérito em renunciar às riquezas que de fato se possui, a impressão vital e as formas do espírito são maiores quando a renúncia afetiva acompanha uma carência real, a de quem não as possui, nem as possuiu, nem tem perspectiva de possuí-las jamais”. Como toda espiritualidade necessita de testemunho que a convalide, aquela ensinada por São João da Cruz tem raízes em experiências concretas vividas por ele.

A experiência da pobreza, vivida à flor da pele, molda profundamente o seu espírito. São João da Cruz, pelas oportunidades que teve na sua adolescência, poderia ter seguido uma das profissões nas quais foi iniciado e para as quais demonstrou habilidade: pintor, desenhista, escritor, carpinteiro, entalhador… Porém o jovem sente um chamado maior, e não se deixa seduzir pela oportunidade de não ser jamais pobre. Quer ser pobre para sempre. É esta a vocação que escolhe, quando em 1559 se faz carmelita e assume o nome de frei João de São Matias. Poderemos objetar dizendo que aos religiosos não falta nada. Para João da Cruz a pobreza era um ideal. Por isso não se sente satisfeito no modo como os religiosos viviam na sua época. Mesmo amante da Ordem que escolheu para viver a radicalidade de sua busca pela vida em Deus, instigava-lhe um permanente desejo de ser melhor. Pensa, naquela época, em ingressar na Cartuxa, uma Ordem monástica, de costumes rigorosos, onde se cultiva o silêncio absoluto e a mais radical solidão. E João da Cruz sabia que a solidão está de mãos dadas com a pobreza, pois de que adianta a riqueza se não posso ostentá-la? Imagine você só, com toda a riqueza do mundo! João da Cruz sabe que na solidão encontra a grande riqueza do mundo e da vida.

Esta perseguição de um ideal que calava no fundo de seu coração terminou quando Deus providenciou um encontro fatal. No dia da sua primeira Missa, em Medina del Campo, encontrou-se João da Cruz com Teresa de Jesus, a grande mulher de Ávila. Tendo ela iniciado a reforma do Carmelo entre as monjas, desejava fundar um mosteiro reformado entre os frades. Conversando com João da Cruz uma mútua influência acontece. Ambos percebem-se afinados na mesma intuição, no mesmo desejo, no mesmo ideal. São dois grandes corações que se identificam. Santa Teresa, esta mulher de caráter forte, de grande poder de persuasão, pela convicção que demonstra, consegue convencer João da Cruz de que, se ele deseja uma vida em Deus, para a Igreja, vivida na radicalidade, não precisava ir para a Cartuxa, mas poderia vivê-la no Carmelo mesmo. João da Cruz deixa-se convencer por ela. Mas, da sua parte, também impõe a ela, pela convicção com que ele persegue seu rumo, a condição de que não tarde o momento de poder viver a vida que ela lhe propõe. De fato, no ano seguinte, João da Cruz faz-se “descalço”. Este foi o nome adotado pela Madre Teresa à sua reforma.

Num lugarejo pobre entre as Cidades de Ávila e Salamanca, de nome Duruelo, no ano de 1568, João começa uma nova vida marcada pela alegria de se viver na radical pobreza e na mais profunda alegria. Santa Teresa, ao narrar a fundação de Duruelo, revela a ânsia que dominava João da Cruz por iniciar aquela vida. Falando dos preparativos e da ida de frei Antônio para lá, este que fora o companheiro de João naquela empreitada, diz: “E frei João já estava lá”.  Num casebre vive como se estivesse no paraíso. Ali muda de nome mais uma vez. Seu nome será João da Cruz. Deixa o nome de família (Yepes), e do Carmelo (São Matias), para escolher a cruz como lugar de origem, título de nobreza, herança de família.

A experiência pessoal de João em Duruelo é escondida. Manteve para si os detalhes. Quando, no fim de sua vida, doente, fora visitado pelo então Provincial descalço que iniciara com ele a vida em Duruelo, os frades, aproveitando daquele encontro entre os dois pioneiros, pedem-lhes que lhes contem a aventura dos inícios da reforma.  Frei Antônio começa a contar dos trabalhos que tiveram que enfrentar naqueles primeiros tempos e é logo interrompido por João da Cruz: “É essa a palavra que me deu de que, em toda a nossa vida, não comentaríamos nada disso?” Sabemos, porém,  que em Duruelo vive com outros dois frades com animosidade e que cuida das pessoas que vivem nos povoados ao redor.

João abraça a pobreza carmelitana e em vista dela inicia com Teresa a obra que fará com que outros possam viver sua mesma busca. Torna-se ele um reformador e no Carmelo descalço sobressai-se. Além de ter sido o primeiro descalço, foi o primeiro mestre de noviços em Duruelo e Mancera; o primeiro reitor de estudantados da Reforma; diretor espiritual das religiosas, principalmente a partir de sua nomeação para confessor de Ávila, no mosteiro onde Santa Teresa ingressara no Carmelo e para onde a enviaram como Madre, num dos momentos mais difíceis da sua obra reformatória. Aí João da Cruz intervém com maturidade na vida das monjas, dirigindo-as, orientando-as, inclusive à grande Santa.

Em Ávila sofre o golpe da perseguição e da tentativa de se desacelerar o processo da reforma. Depois de ter dado as autorizações para as fundações de 7 conventos descalços, o Pe. Geral dos Carmelitas vê-se contrariado por um decreto de Roma, obtido pelo rei de Espanha, Filipe II, dando-lhe poderes para nomear visitadores apostólicos sobre os conventos de duas Províncias Carmelitanas. Os visitadores acabam por impor, de alguma forma, a que todos os conventos sejam orientados pela reforma, nomeando superiores descalços. Tais acontecimentos, unidos a outros, faz com que os Padres “Calçados” tomem medidas afim de impedir a expansão e até mesmo conseguir a eliminação dos Descalços. Uma batalha de decretos e nomeações se inicia, de um lado e de outro, decretos interpõem-se, anulando-se uns aos outros. Uns são a favor da Cúria Geral, outros a favor dos Descalços. Acusações são desfechadas contra os descalços junto ao Rei, junto ao centro da Ordem e junto à Santa Sé – ao ponto de Santa Teresa advertir a um dos seus frades mais próximos, o Pe. Gracián, de que em Roma houvesse alguém que, perante o Papa, pudesse responder pelas más informações que chegavam contra os Descalços.

O auge do conflito é atingido quando do Capítulo Geral da Ordem em maio de 1575. Este Capítulo decidiu, entre outras coisas: nomear um visitador da Ordem para todos os Carmelitas da Espanha e Portugal; suprimir os conventos fundados sem autorização da Ordem; proibir novas fundações; recluir Santa Teresa em um convento. Fora nomeado visitador o Pe. Jerônimo Tostado, que tem dificuldades de desempenhar sua função, principalmente por causa dos poderes do núncio espanhol, apoiado pelo rei, e que havia nomeado superior dos descalços o Pe. Gracián.

Deste atrito entre os frades, João da Cruz com certeza foi aquele que mais sofreu as consequências, apesar de ter sido o menos belicoso. No início de 1576 fora preso pelos frades que se opunham à sua função de confessor do Mosteiro da Encarnação. Por decisão do Núncio João da Cruz volta ao Mosteiro, e a situação, fácil de ser prevista, piora. O recrudescimento da investida contra os descalços vai atingir o seu clímax para frei João da Cruz na noite de 2 de dezembro de 1577. Então, frades Calçados, alguns leigos e alguns homens armados prendem frei João e um seu companheiro. A frei João o levam, com vendas sobre os olhos e algemas nos braços, para o cárcere do convento carmelitano da cidade de Toledo. Este será um dos momentos mais dolorosos e, ao mesmo tempo, mais ricos da vida de João da Cruz.

A prisão, durante nove meses, é a experiência maior do nada que sempre  acompanhou São João da Cruz e que ele não hesitou em abraçar. Tal momento foi transformado por ele em profunda experiência religiosa e psicológica. A escuridão, o isolamento, o abandono dos seus irmãos calçados e descalços, a privação da Eucaristia, os maus tratos foram para João da Cruz absorvidos como meios para a revitalização de suas convicções evangélicas, para o saboreio do divino em sua pureza, sem mescla de consolo terreno. “Mistério de nove meses em um rincão sujo, respirando o mesmo ar e vestindo a mesma roupa, sem luz nem diálogo, tomado física e moralmente pela angústia. Teve ali luzes e graças… e por uma só delas suportaria anos de cárcere”, comenta Federico Ruiz, um dos grandes estudiosos do santo.

Em meados de agosto de 1578 aventura-se numa fuga perigosa. Longe dos seus perseguidores, é deixado finalmente em paz, e pode continuar sua lida de reformador, tendo já alcançado o ideal que buscava, atingindo o cume da imersão mística no mistério do Tudo, pelo qual provou, desde sempre, o nada que a ele conduz.

A partir desta experiência de Toledo, São João da Cruz segue sua vida no Carmelo Descalço, com muitas atividades e cargos. A partir do ano de 1588, porém, a criação de uma instituição chamada “Consulta”, criada pelo padre Nicolau Dória, para o governo das monjas, faz com que João da Cruz, homem silencioso e alheio às tramas dos homens, veja-se no dever de opor-se ao que poderia ir contra as inspirações de Santa Teresa, nesta época já falecida. A oposição de nosso Santo frade vai resultar-lhe em um final de sofrimentos. No primeiro Capítulo Geral da reforma, em 1591, João da Cruz fica sem nenhum cargo, não para o seu prazer, pois ele o pedira, mas porque os outros o desejavam. O que poderia favorecer a um tempo de tranquilidade para ele, converte-se em seis meses de uma outra “noite escura”, semelhante a Toledo.

Sem autoridade, depois de vinte anos de reforma, São João da Cruz vê-se entregue às mãos de inimigos que esperavam a ocasião para humilhá-lo. Sofre todo tipo de calúnias, é abandonado por todos, querem expulsá-lo da Ordem, pensam em enviá-lo ao México… Mas uma alma de proporções gigantescas como a dele, envolta num clima de brandura e amor, não se deixa abater. Quando lhe sobrevem a enfermidade, podendo escolher um convento que não o deserto onde se encontrava, para que pudesse ter um tratamento melhor, escolhe Úbeda, onde encontrava-se um superior que o olha com maus olhos. Naquele convento, depois de tantos maus tratos, João da Cruz recebe finalmente atenção do superior, obrigado pelo Provincial a favorecer-lhe. Como se pode amar alguém à força da obediência?

Oprimido pelas dores físicas e morais, mas consolado pela união de amor com Deus, por quem tudo suportou, João da Cruz falece e vê seu desejo realizado em 14 de dezembro de 1591:

“Oh chama de amor viva

Que ternamente feres

De minha alma no mais profundo centro!

Pois não és mais esquiva,

Acaba já, se queres,

Ah! Rompe a tela deste doce encontro.”

Frei César Cardoso de Resende, ocd

teresinhaSANTA TERESINHA DO MENINO JESUS E DA SANTA FACE

Nasceu em 02/01/1873, em Alençon – França, nona filha do casal Luís Martin e Zélia Guérin.

Entra no Carmelo em Lisieux com 15 anos em 09/04/1888.

Com 18 anos, em 08/09/1890, faz sua Profissão Religiosa.

No dia 30/09/1897, com 24 anos, morre Teresinha diante de sua comunidade reunida. “Não me arrependo de me ter entregue ao Amor!”

Em 29/04/1923 foi Beatificada por Pio XI, apresentando-a ao mundo como “a estrela de seu pontificado”.

Em 17/05/1925, foi canonizada na Basílica de São Pedro, em Roma por Pio XI.

Em 13/07/1927, a festa litúrgica é estendida à Igreja universal, e em 14 de dezembro, Pio XI proclama santa Teresinha patrona principal de todos os missionários, ao lado de são Francisco Xavier.

Em 03/05/1944, Pio XII proclama patrona secundária da França, ao lado de Joana D’Arc.

Em 19/10/1997, o Papa João Paulo II declara Teresinha “Doutora da Igreja”.

A SANTIDADE EM SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS E DA SANTA FACE

Abrimos o mês de novembro com a Solenidade de Todos os Santos, no dia 1º. Essa solenidade é antiga na Igreja e remonta ao século II quando já se celebrava a memória dos seus mártires. A celebração de Todos os Santos é uma festa para todos os fiéis, e nos lembra que a nossa vocação comum é a SANTIDADE. O Evangelista São Lucas, ao se referir aos cristãos de Lida, chamava-os de “santos”, pois considerava santos todos os batizados, porque receberam a graça de Cristo e a vocação para a santidade, formando o novo povo de Deus (cf. At 9,32). Mas o que é exatamente a santidade? Ou melhor, o que significa ser santo?

A palavra “santo” provém do termo hebraico קדש (lê-se QaDoSH) e refere-se a tudo aquilo que está afastado, separado do impuro ou do profano para o serviço de Deus. Santo é, sobretudo, aquilo que constitui o “numinoso” da divindade, isto é, a majestade de Deus inacessível às criaturas, a própria glória divina: “Santo, santo, santo é o Senhor Todo-poderoso, e a terra está cheia de sua glória” (cf. Is 6,3). O povo de Deus deve ser “santo” para assemelhar-se a Deus e entrar em comunhão com ele (cf. Lv 20,7.26). Nós cristãos somos chamados “santos”, pois fomos todos batizados, recebemos a graça de Cristo e a vocação para a santidade, formando o novo povo de Deus (cf. At 9,13.32; Cl 1,12; Ex 19,3.6).

A doutrina da Igreja acerca da santidade, expressa no Catecismo, ensina que: ao canonizar certos fiéis, isto é, ao proclamar solenemente que esses fiéis praticaram heroicamente as virtudes e viveram na fidelidade à graça de Deus, a Igreja reconhece o poder do Espírito de santidade que está em si e sustenta a esperança dos fiéis propondo-os como modelos e intercessores[1].

O nosso saudoso Papa João Paulo II ao se referir à santidade na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte é enfático: no que tange à vida de santidade “seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial”[2]. Veremos na espiritualidade de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face como ela nos ensina um caminho de santidade, caminho este radical e ao mesmo tempo acessível a todos, sobretudo aos mais pobres e aos mais pequeninos; o caminho que ela mesma percorreu, sua “via da confiança e do amor” (cf. Ms A 80v). O Papa Pio X já se referia a Santa Teresinha como “a maior santa dos tempos modernos”! Para Santa Teresinha, a santidade não é essencialmente outra coisa que o Amor, a Caridade em sua plenitude no coração humano. Nisso consiste a divinização do homem pelo Espírito Santo, independentemente das manifestações extraordinárias que possam se dar na vida dos santos.

Santa Teresinha tomou consciência logo da sua própria vocação à santidade. Entusiasmada pela história de Joana d’Arc, narra como chegou a compreender a grandeza do chamado do Senhor: “Fez-me compreender também que a minha glória não apareceria aos olhos dos mortais, consistiria em torna-me uma grande Santa!… Este desejo poderia parecer temerário, se se considera como eu era fraca e imperfeita e como ainda o sou após passar sete anos em religião. Contudo, sinto sempre a mesma confiança audaciosa de tornar-me grande santa. Pois não conto com meus méritos, não tendo nenhum, mas espero Naquele que é a Virtude, a Própria Santidade. É Ele só que, contentando-se aos meus fracos esforços, me levará até Si e, cobrindo-me com seus méritos infinitos, tornar-me-á Santa” (cf. Ms A 32r).

Esta “confiança audaciosa de chegar a ser uma grande santa” era considerada, efetivamente, ao seu redor como algo temerário. Em virtude disso, pôde mantê-la apoiando-se no Evangelho. Por isso convida Celina a não limitar-se na santidade de Santa Teresa de Ávila: “Celina, pensas que Santa Teresa recebeu mais graças que tu?… Não te direi que tendas a sua santidade seráfica, mas que sejas perfeita como teu Pai celeste é perfeito[3] !… Ah! Celina, os nossos desejos infinitos não são portanto nem sonhos, nem quimeras pois o próprio Jesus nos deu este mandamento !…” (cf. C 107).

Mais tarde, depois de sua entrada no Carmelo, vem descobrir como realizar concretamente tal desejo. É a descoberta da “pequena via”, narrado no começo do Manuscrito C: “Sabeis, Madre, que sempre desejei ser santa, mas ai! Sempre constatei, quando me comparei com os santos, que há entre eles e mim a mesma diferença que existe entre uma montanha cujo cimo se perde nos céus e o obscuro grão de areia pisado pelos transeuntes. Em vez de desanimar, disse a mim mesma: Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis, portanto posso, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade; não consigo crescer, devo suportar-me como sou, com todas as minhas imperfeições; mas quero encontrar o meio de ir para o Céu por um caminhozinho bem reto, bem curto, uma pequena via, totalmente nova” (cf. Ms C 2v).

Explica sua descoberta sobre o símbolo do elevador: “Vossos braços são o elevador que deve elevar-me até o Céu, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso permanecer pequena, me apequenar sempre mais” (cf. Ms C 3r).

A partir desse momento, Santa Teresinha pode comunicar aos demais sua “confiança audaciosa” de chegar à santidade: ensina-a a suas noviças e a seus irmãos espirituais, afirmando em termos gerais: “Se todas as almas fracas e imperfeitas sentissem o que sente a menor de todas as almas, a alma da vossa Teresinha, nenhuma perderia a esperança de atingir o cimo da montanha do amor” (cf. Ms B 1v). No simbolismo sanjuanista, “o cimo da montanha do amor” representa o cume da santidade.

A descoberta do “Coração da Igreja” representa a compreensão mais profunda da santidade da Igreja. Nesse “Coração ardente de amor”, isto é, na mesma e idêntica caridade, dom supremo do Espírito de Amor, se dão e são abarcados todos os santos ao largo de todos os tempos, todos os lugares e todas as vocações, ainda que mais diversas.

Ao final do Manuscrito C, Santa Teresinha trata ainda de iluminar o mistério da santidade cristã, mostrando seu caráter não somente individual, mas também universal. Ao suplicar a Jesus para que seja atraída pelas chamas de seu Amor até chegar a ser uma pura incandescência, deseja, ao mesmo tempo, atrair a si todos que se acerquem dela (cf. Ms C 36r). Assim realiza plenamente sua vocação de ”amar Jesus e fazê-lO amar” (cf. C 220).

Desse modo, a nossa santa toma parte nesta grande “constelação de santos”, que não cessam de levantar ao mundo até o mesmo Fogo de Amor, que eles têm recebido na oração, como os primeiros discípulos no dia de Pentecostes: “Não foi na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus hauriram essa ciência divina que encanta os maiores gênios? […] O Todo-poderoso deu-lhes como ponto de apoio: Ele próprio e só Ele. Como alavanca: a oração que abrasa com o fogo do amor. Foi com isso que ergueram o mundo. É com isso que os santos que ainda militam o erguem. Até o final dos séculos, será com isso também que os santos que vierem haverão de erguê-lo” (cf. Ms C 36r-v).

Como vimos, Santa Teresinha “encontrou na caridade a chave da sua vocação” (cf. Ms B 3v), o verdadeiro significado da santidade, o sentido para a sua vida. Fazendo eco ao apelo que João Paulo II nos pede na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte a “não nos contentar-mos com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial”[4], Santa Teresinha dá-nos exemplo com seu projeto de vida: “Não quero ser santa pela metade…” (cf.Ms A 10v). Peçamos a ela que interceda por nós junto a Deus para que, ao mirar o seu exemplo (cf. 1 Cor 1,11), possamos compreender e corresponder ao chamado à santidade que Deus em sua providência e misericórdia infinita nos faz a cada dia. Que também nós possamos “encontrar na caridade a chave da nossa vocação” e juntos construir um mundo de paz, de justiça, de AMOR!!!

“Então, no excesso de minha alegria delirante, exclamei: Ó Jesus, meu Amor… enfim, encontrei minha vocação, é o Amor!…

Sim, achei meu lugar na Igreja e esse lugar, meu Deus, fostes vós que mo destes… No Coração da Igreja, minha Mãe, serei o Amor… assim serei tudo… desta forma, meu sonho será realizado!!!…” (Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, Ms B 3v).

LAUS DEO VIRGINIQUE MATRI

REFERÊNCIAS:

BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1989.

BÍBLIA Sagrada. 45 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

CATECISMO DA Igreja Católica. 11 ed. São Paulo: Loyola, 2001.

COMPÊNDIO do Vaticano II. 27 ed. Petrópolis: Vozes, 1998.

LÉTHEL, François Marie. Santidad. In: ______. Diccionario de Santa Teresa de Lisieux. Burgos: Editorial Monte Carmelo, 1997. p. 605-608.

NOVO Millennio Ineunte. São Paulo: Paulinas, 2001.

SCIANDINI, PATRÍCIO. SANTA Teresinha de A a Z. (Seleção e introduções: Frei Patrício Sciadini, OCD). São Paulo: Loyola, 1996.

TERESA do Menino Jesus e da Sagrada face. Obras Completas (Textos e Últimas Palavras). 2 ed. São Paulo: Loyola, 2001

[1] Cf. CIC 828.
[2] Cf. NMI 31.
[3] Cf. Mt 5,48.
[4] Cf. NMI 31.

teresinha-jesusSanta Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)

“Sê diante dos homens o que tu és. É preciso ser diante dos homens, o que se é diante de Deus.”

Do seio de uma família judia, tendo por pais o Sr. Siegfried Stein e a Sr.ª Auguste Stein, nasce Edith Stein, a filha-caçula de onze filhos. Nasceu na cidade alemã de Breslau, no dia 12 de outubro de 1891; ocorria neste mesmo ano, no calendário judaico, a festa do Yom Kippur ou da Reconciliação. Não seria essa coincidência uma profecia para a pequena Edith, que em 1942, com sua morte, se ofertaria em expiação por seu povo?

Edith, desde criança, teve um caráter forte e sempre buscou o conhecimento, sendo predisposta aos estudos. O contato com as culturas de sua cidade – seja nas artes ou nas ciências humanas –, que se tornou centro importante da cultura judaica, despertou-a desde cedo à vida intelectual. A sua juventude foi caracterizada pelos estudos e por uma busca incessante pela verdade. Basta perceber as graduações acadêmicas conquistadas por ela: a Psicologia, as Letras, a História, a Antropologia; além da facilidade que tinha em aprender outras línguas. Mas, diante de um vazio existencial que se lhe apresentou na juventude, por fim, buscou a Filosofia, na qual se encontrou definitivamente.

Viveu, na infância, sempre das tradições judaicas; sua família, que teve uma longa tradição até a sua mãe, lhe outorgou tais valores religiosos. A Sr.ª Stein, muito piedosa e com grande fé no Deus de Israel, levava a sua filha às orações na sinagoga e também a introduziu nos ritos em seu lar. Contudo, alguns de seus irmãos não viviam a mesma fé com convicção, levando a jovem Edith a questionar-se muito a esse respeito. A experiência do suicídio de dois familiares levaram-na a novas interrogações. A indiferença religiosa passou a fazer de sua vida e deixou-lhe alheia e apática diante da prática religiosa, passando a viver em agnosticismo.

Depois de uma parada nos estudos, por motivo do auxílio dispensando a sua irmã Erna – recém-casada –, com os afazeres em outra cidade, a jovem Edith Stein retomou-os outra vez. Os estudos tiveram um papel fundamental na vida intelectual de Edith, pois “quem procura a verdade procura a Deus, quer saiba ou não.” Depois dos bacharelados conquistados, que revelam a inquietação interior de Edith, sai de Breslau e segue para Göttingen – cidade alemã na qual encontra a Edmund Husserl, fundador de uma corrente filosófica muito divulgada ainda hoje: a Fenomenologia. Edith se acercará desse Movimento, ele marcará e mudará profundamente a sua visão de mundo. Doutora-se em filosofia com a tese do tema que até hoje é estudado na Filosofia, na Psicologia e em outros campos: a empatia (Einfühlung, na língua alemã). Torna-se a assistente de Husserl; e, depois, faz outros estudos: Causalidade psíquica, Indivíduo e comunidade, Uma investigação sobre o Estado, que desvelam a grande preocupação da fenomenóloga Dr.ª Edith Stein: o ser e o existir do Ser humano. Durante a confecção de sua tese doutoral, em 1918, teve de interrompê-la pois, chegando a 1ª Guerra mundial, alistou-se como voluntária na Cruz vermelha; experiência que lhe marcou profundamente. Depois da guerra, com todas as dificuldades que a Alemanha passava, tentou ascender à Cátedra na Universidade de Göttingen; não conseguindo por diversos fatores, dentre eles seu gênero.

O encontro com a fé cristã foi acontecendo paulatinamente. Visitas a algumas igrejas e a amigos cristãos – em especial um, com a viúva de Reinach (grande amigo seu, participante do grupo de estudos filosóficos, que morreu na guerra) da qual Edith encontrou, apesar da morte do marido, numa paz desconcertante –, levaram-na a ter uma experiência com Jesus Cristo. Leu autores cristão-protestantes e também católicos: As Confissões de Santo Agostinho, os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola; porém, em junho de 1921, na casa dos Conrad-Martius – seus amigos filósofos –, teve acesso ao Livro da Vida de Santa Teresa de Jesus; ao lê-lo, conforme afirmou em sua obra autobiográfica Como cheguei ao Carmelo de Colônia: “no Verão de 1921 caiu nas minhas mãos a ‘vida’ da nossa Madre Santa Teresa, o qual veio pôr fim à minha longa busca da verdadeira fé”, teve uma forte e profunda experiência, através da Santa Madre Teresa, com Jesus Cristo – a Verdade que buscava. Marcou tanto a experiência com a Santa Madre, que Edith tomará seu o nome religioso ao ingressar no Carmelo Descalço de Colônia.

Edith despertou-se para a espiritualidade e a religião. Passou a participar da Santa Missa; pediu o batismo no catolicismo em 01 de janeiro de 1922, e no mesmo ano, em fevereiro, recebeu o Sacramento da Confirmação; passou a ser dirigida espiritualmente por um abade beneditino, D. Rafael, que lhe tirou muitas dúvidas; deu aulas no Colégio beneditino de Santa Madalena, em Espira. Edith buscava o recôndito silencioso da abadia para a oração; ela crescia cristãmente.

Por fim, em seu discernimento, optou pelo Carmelo Descalço; e, em 14 de outubro de 1933, após as primeiras vésperas da solenidade de Santa Teresa, adentrou, com uma idade bem madura, para a vida religiosa. Em 15 de abril do outro ano foi sua tomada de Hábito, marcando o início de seu noviciado; passou a se chamar Ir. Teresa Benedita da Cruz; depois de um ano emitiu seus primeiros votos religiosos. No Carmelo, nos primeiros anos, Ir. Benedita levou uma vida silenciosa, pobre, obediente e de esquecimento; essa última característica, bem diferente da que vivia quando estava no século, pois por causa das conferências dadas por toda a Alemanha, e do círculo filosófico que fazia parte, tornou-se bem conhecida. Fato é que as irmãs não sabiam de sua vida intelectual anterior a sua entrada no Carmelo; somente sabiam seus superiores. A comunidade só veio a descobrir tal fato quando Edith entrou para o noviciado, pois estavam presentes, na cerimônia, os vários nomes da Academia filosófica alemã; ela era “uma irmã entre as irmãs”. Testemunham as suas coirmãs que a Ir. Teresa Benedita nunca se impostou por causa de seus dons intelectuais, e que participava de todos os trabalhos, das orações comunitárias, dos recreios – em que era muito agradável, por sinal. Somente depois exerceu o papel de educadora no Carmelo (ensinou o latim e a gramática às noviças), a pedido insistente das superioras, do qual praticou em completa humildade e mansidão.

O provincial também lhe pedira que continuasse com seus trabalhos filosóficos, que mantivera somado a esses, por sua livre vontade, os ofícios regulares de seu mosteiro. De alguns de seus trabalhos, que resistiram à destruição nazista, chegaram a nosso tempo Ser finito e ser eterno (compêndio de todo pensamento steiniano) e seu último trabalho copilado em Echt, em 1940: a Ciência da Cruz – em comemoração da celebração do IV centenário de nascimento de São João da Cruz. Esta última obra marca a vida da Ir. Benedita; tal Ciência foi experimentada, no fim de sua vida, nos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau: o Holocausto nazista, fato vergonhoso do genocídio do povo judeu alemão, causado pela insana idolatria pelo poder, por Adolf Hitler.

A Alemanha, no pós-guerra, não estava bem; e depois da ascensão de Hitler ao poder, as coisas ficaram ainda piores com o regime nazista. A princípio, somente os tradicionais judeus foram interceptados pela Gestapo (polícia nazista) e, disfarçadamente, eram levados aos vários campos de concentração para os duros trabalhos; os nazistas dissimulavam para o resto do mundo o que ocorria. Ao perceber o que estava acontecendo, a madre do Carmelo de Colônia começou a fazer os trâmites necessários para a transferência da Ir. Benedita e também à sua irmã Rosa Stein, que depois da morte de sua mãe abraçou a fé católica, passando a exercer o apostolado leigo naquele Carmelo. As duas passaram à fronteira, e foram acolhidas em 1938 no Carmelo de Echt, na Holanda.

Até então as duas irmãs estavam tranquilas; porém como as coisas se complicavam ainda mais, com as perseguições nazistas aos grupos minoritários, num ato ecumênico, todos os bispos católicos e pastores protestantes denunciaram as agressões psicológicas e físicas que estavam acontecendo aos desvalidos. Escreveram uma carta que fora lida e depois afixada nas igrejas. Enfurecidos, sobremaneira, Hitler e seus comparsas, passaram também a aprisionar até mesmo os judeus convertidos ao cristianismo; que por esse motivo, também foram lançadas à sorte as irmãs Stein. Hitler invadiu pouco a pouco as regiões circunscritas à Alemanha: em 01 de setembro de 1939 as tropas nazistas invadiram a Polônia, marcando o inicio da 2ª Guerra mundial. Ir. Benedita e sua irmã Rosa tentaram novos trâmites, dessa vez para a Suíça; porém as burocracias existentes para a passagem à outra nação, não lhes deram tempo necessário. Ao ser invadida a Holanda, a Gestapo inferiu uma ordem para que as duas irmãs se apresentassem imediatamente. Ir. Benedita teve pouquíssimo tempo para as despedidas com suas coirmãs, e de certa forma, ela e Rosa, foram arrancadas à força do Carmelo. As irmãs Stein foram presas no outono de 1940.

Até chegar ao campo de concentração de Auschwitz foi um longo percurso. Nos vagões superlotados do trem, e parando em vários outros campos de concentração, as irmãs Stein puderam ver o terror e a destruição causados pela irracionalidade e a falta de amor pelo próximo. Relatos contam que a Ir. Benedita, nesse ínterim, não perdeu a esperança nem a fé nem muito menos a caridade. Enquanto as mães, em acessos de loucura, por causa da dor, esqueciam seus próprios filhos, Ir. Benedita cuidava destes, penteando-os, alimentando-os, cantando canções para que dormissem. Contam ainda que era notório àquela irmã vestida com seu Hábito marrom, espairecer paz e tranquilidade através das palavras de fé que trazia a todos, sendo a presença de Cristo naquele lugar de brutalidades e desamor. Em suas orações individuais, ainda no Carmelo, havia entendido sua missão: como a rainha Ester deveria junto ao Rei dos reis, interceder; ofertou-se Ir. Teresa Benedita da Cruz por seu povo, pela conversão dele e de toda a humanidade em um holocausto de amor. Seu número na lista nazista: 44070 – número que revela a desastrosa destruição causada pelo ódio dos corações que não se deixaram alcançar e aquecer pelo amor de Deus. Em 09 de agosto de 1942, Ir. Teresa Benedita foi lançada nas câmaras de gás de Auschwitz; e, nos fornos crematórios, queriam que sua memória fosse esquecida para sempre.

Porém os desígnios de Deus não são os dos homens: no dia 01 de maio de 1987 a Ir. Benedita foi beatificada pelo Papa São João Paulo II; em 11 de outubro de 1998, canonizada pelo mesmo Papa. A memória litúrgica de Santa Teresa Benedita da Cruz – virgem e mártir –, é comemorada no dia 09 de agosto. São palavras do Papa São João Paulo II: “como esposa sobre a Cruz, a Irmã Teresa Benedita não escreveu apenas páginas profundas sobre a ciência da Cruz, mas percorreu profundamente o caminho na escola da Cruz. Muitos dos nossos contemporâneos quiseram fazer calar a Cruz. Mas nada é mais eloquente do que a Cruz posta a calar! A verdadeira mensagem da dor é uma lição de amor. O amor torna fecunda a dor e a dor aprofunda o amor.”

Em 01 de outubro de 1999, o mesmo Papa proclamou-a copadroeira da Europa. Neste ano de 2014, Santa Teresa Benedita da Cruz foi proclamada como intercessora de todos os universitários.

Frei Washington da Santa Face, Belo Horizonte-Mg.

BIBLIOGRAFIA: FERMÍN, Francisco Javier Sancho. 100 fichas sobre “Edith Stein”. Burgos: edições Carmelo, 2008.

As citações entre aspas, com exceção da última, pertencem a Santa Teresa Benedita da Cruz.

aSANTA TERESA DE LOS ANDES: “Amar e Sofrer” no Senhor

“[…] acredita que vai encontrar-se com uma história interessante. Não quero que se engane. A história que vai ler não é a história de minha vida, mas a vida íntima de uma pobre alma que, sem mérito algum de sua parte, foi querida especialmente por Jesus Cristo, que a cumulou de benefícios e graças.”

(Santa Teresa de Los Andes)

Diante dos vários exemplos de santos que a santa Igreja nos traz, a ordem do Carmelo Descalço nos apresenta muitos santos que nos ajudam a buscar a Deus com seus exemplos de vida, oração, silêncio, encontro com Deus e na vivência do ordinário da vida contemplativa e apostólica nos conventos. O Carmelo Descalço possui muitos santos: Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Edith Stein, Beata Elisabete da Trindade, Beata Mirian de Jesus Crucificado e tantos outros frades e monjas que nos dão exemplo de vida. Uma que nos chama atenção é a santa carmelita descalça que viveu na América Latina, Santa Teresa de Jesus, mais conhecida como Santa Teresa de Los Andes.

Juanita Enriqueta Josefina dos Sagrados Corações, nome este de batismo, nasceu em Santiago do Chile no dia 13 de julho de 1900, filha de Miguel Fernández Jaraquemada e Lucía Solar Armstrong. Desde muito pequena, gostava de ouvir falar de Deus e sempre levou para sua vida os ensinamentos cristãos transmitidos pela sua família. No ano de 1910, recebe a sua primeira comunhão, data que a marcou muito. Desse dia em diante, considera Jesus como um noivo e todos os dias, ao comungar, ficava horas a falar com Ele.

No decorrer de sua vida, viveu para ser inteiramente de Cristo e tinha grande devoção pela Santíssima Virgem Maria. Juanita, pelo contato que teve ao estudar no colégio do Sagrado Coração, durante sua vida vocacional, teve dúvidas em entrar para as Carmelitas ou ser religiosa do Sagrado Coração. Seu amor ao Carmelo se dá, inicialmente, com a leitura da Santa Madre Teresa, que a deixou animada no propósito de rezar diariamente. Alguns meses depois ler Beata Elisabete da Trindade, ela se encanta e comunga do mesmo ideal de vida, que é viver com Jesus no íntimo de seu ser e converter toda a sua existência em louvor a Deus.

Em 5 de dezembro de 1917, escreve sua primeira carta para a Madre Angélica, priora das Carmelitas de Los Andes, na qual expressa ardente desejo de pertencer à comunidade. Daí em diante, seu contatos com as monjas de Los Andes se intensifica. Em 7 de setembro de 1918, escreve uma carta pedindo para ser admitida naquela comunidade e a resposta foi positiva. Em 11 de janeiro, visita o Carmelo juntamente com sua mãe e, ao retornar para casa, volta decidida a ser monja. Nesse intervalo, pede a permissão para seu pai, que dá seu consentimento. Em meados de março a maio, Juanita vive um período de felicidade e de dor ao mesmo tempo: felicidade, porque logo realizará seu ideal de ser toda de Deus; a dor mais dilacerante, porque terá que se separar de seus pais e irmãos.

No dia 7 de maio de 1919, realiza o grande ideal de Juanita, de ser inteiramente de Deus ao ingressar nas Carmelitas de Los Andes aos 19 anos de idade. Nessa ocasião, muda seu nome para Teresa de Jesus. Escondida na clausura, desenvolve, sem dúvida, intenso apostolado, não apenas na misteriosa fecundidade do sacrifício e da oração, mas também em suas cartas. Em 14 de outubro do mesmo ano, recebe o santo hábito de carmelita descalça e dá início ao seu noviciado, período este em que seus familiares pressupõem que a amada Juanita esteja sofrendo. Porém, com uma carta, ela consola seus familiares, dizendo-lhes está no lugar mais belo e feliz ao ser toda de Deus.

Nos primeiros dias de março de 1920, diante da gruta de Nossa Senhora, recebe um aviso que morrerá em um mês. Entretanto, esse aviso é algo que não a preocupa; pelo contrário, trazia consigo que a morte é submergir-se definitivamente em Deus, em cujos braços amorosos que vivia. No dia 2 de abril, Sexta-feira Santa, a Ir. Teresa de Jesus cai gravemente enferma de tifo. A partir daí, seu estado de saúde piora cada vez mais, e Teresa de Jesus emite sua profissão religiosa e se consagra definitivamente ao Senhor. No dia 12 de abril de 1920, às 19h15, morre santamente a jovem Irmã Teresa de Jesus com seus 19 anos, nove meses de vida e onze meses de carmelita.

Possuindo pouco tempo de vida e de carmelita, esta mais jovem santa do Carmelo Descalço passa a ser conhecida como Santa Teresa de Los Andes. A santa de Los Andes nos ensina a amar cada vez mais a Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Santíssima Mãe, a Virgem Maria. Por meio de sua vida, a santa nos ensina a vivermos as virtudes para se alcançar a santidade. Como percebemos em sua vida, para se atingir a santidade, é necessário que nos entreguemos, sem reservas, Àquele que se tornou seu noivo no dia da sua Primeira Comunhão e sempre lhe foi fiel. Como ela mesma afirma, sua vida pode ser resumida em duas palavras: “sofrer e amar”, e continua dizendo: “Eu sofria, porém o bom Jesus me ensinou a sofrer em silêncio e desabafar nele meu pobre coraçãozinho”.

Para aqueles que desejam conhecer mais desta grande Santa da América Latina, Santa Teresa de Los Andes, leia os seguintes livros:

 

  • Diário e Cartas; Santa Teresa de Los Andes; Edições Loyola.
  • Deus, alegria infinita; Teresa de Los Andes; Edições Loyola.
  • Santa Teresinha da América Latina – Pensamentos; Teresa dos Andes; Edições Loyola.
  • DVD: Santa Teresa dos Andes – Coleção; Paulinas.

Felipe Afonso

Postulante do Carmelo Descalço.

Paranoá, 10 de fevereiro de 2015.

Ano do V Centenário de Santa Madre Teresa de Jesus.

saojoseSão José, pai adotivo de Jesus Cristo

No Evangelho de Lucas (Lc2,4), está escrito que São José era da família de Davi. Quando o evangelista fez essa referência à descendência davídica de São José, na verdade, pretendia reforçar o cumprimento da promessa que Deus havia feito no Antigo Testamento: “De Davi farei brotar um forte herdeiro, acenderei ao meu ungido uma lâmpada”. (Sl 131). Em outras palavras, o que Lucas queria afirmar é que Deus é fiel em suas promessas. Através da colaboração de muitas pessoas, entre elas São José, Deus foi, aos poucos, preparando a chegada de seu Filho Jesus entre nós.

Em Mateus (Mt 1,19), lemos que ele, José, era um homem justo. O que significa ser justo? Para este evangelista, Jesus é o “Mestre da Justiça”, aquele que cumpre toda a justiça.  Justiça é, no entender de Mateus, fazer a vontade do Pai. Portanto, quando Mateus diz que José era um homem justo quer significar que o pai adotivo de Jesus era um homem que buscava em tudo ser obediente a Deus e fazer sua vontade.

Enquanto Maria e José estavam noivos, algo inesperado aconteceu, a promessa do Pai estava prestes a ter seu pleno cumprimento. Lucas narra, então, a anunciação do anjo à virgem Maria (Lc 1,26-38). Ela, a noiva de José, estava grávida por ação do Espírito Santo. São José não reconheceu o mistério de Deus de imediato.  Desiludido e porque ele amava Maria, quis deixá-la em silêncio, mas o anjo do Senhor manifestou-se a ele em sonho, e por ser justo e obediente aos planos de Deus, acabou por recebê-la em sua casa como sua mulher.

Após o nascimento de Jesus, José recebeu em sonho instruções do anjo para salvar a vida do menino. O evangelista Mateus narra que Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos e mandou matar, em Belém e em todo o seu território, todos os meninos de dois anos para baixo (Mt2,16). José, deste modo, protegeu a vida do menino Jesus e pôde assegurar-lhe condições de crescer em graça e sabedoria diante dos olhos de Deus.

São José teve a graça de presenciar o nascimento de Jesus, de vê-lo crescer, contemplar seus primeiros passos, suas primeiras palavras, de trabalhar para alimentar a ele e sua mãe, Maria. Como era costume na época, ensinou ao filho adotivo o ofício de carpinteiro, pois os pais transmitiam aos filhos os conhecimentos de sua profissão.

Infelizmente, este grande santo não tem o reconhecimento por parte de muitos que ignoram sua importância. Isso, talvez, se deva ao fato de que São José seja um personagem discreto e de breve passagem na Sagrada Escritura.

Santa Teresa de Jesus, quando ficou enferma, recorreu à intercessão dessa figura luminosa. Sendo atendida, criou uma afinidade maior incentivada pelas suas virtudes e pela forma silenciosa que procedia no cuidado da Sagrada Família. Ela o tem como mestre de oração e o recomendava com segurança: “Quem não encontrar mestre que o ensine a rezar tome por mestre este glorioso santo e, não errará no caminho” (Vida 6,8).

São José antecipou, de certa forma, um pouco do carisma do Carmelo Descalço na vivência do silêncio, contemplando, orando e vivendo em comunidade. Por isso, é o padroeiro de nossa Ordem.

Ao fim de sua vida terrestre, experimentou a morte, como todo ser humano, mas não foi uma morte qualquer e, sim, um momento de particular graça: tinha ao seu lado Jesus e Maria em seus instantes derradeiros. Poderia haver maior graça do que termos, no momento de nossa morte, a companhia do Senhor e de sua Mãe Santíssima? Também podemos recorrer a ele como “Advogado da Boa Morte”.

Lucas Pimentel de Oliveira

10/02/2015

teresinha-margaridaSanta Teresa Margarida do Sagrado Coração de Jesus (1747-1770)

“abscondita cum Christo in Deo”

Anna Maria Redi nasceu na pequena cidade de Arezzo, Itália, aos 15 de julho de 1747. Por coincidência, ela foi batizada no dia seguinte, 16 de julho, festa de Nossa Senhora do Carmo, Mãe e Irmã dos Carmelitas.

Sua breve vida foi marcada, desde muito cedo, com os singelos traços da presença de Deus. Ela, ao despertar da razão, perguntava-se: “Dizei-me, quem é Deus?”, em um único desejo de conhecê-Lo e amá-Lo.

Seu pai, Inácio Redi, fora, desde o início, principal confidente e incentivador na fé, educando-a nos princípios e virtudes cristãs e, particularmente, na devoção ao Coração de Jesus, que logo depois tomará para si como centro de toda vida. Preocupado com a educação da filha, entrega-a, aos seus 9 anos, aos cuidados das monjas beneditinas de Santa Apolônia, cuja vida austera e disciplinada ajudaram-na em seu caráter.

No colégio, viveu, exteriormente, a naturalidade de seus dias como educanda, de modo que não se via nada de extraordinário, embora, interiormente, nutrisse consigo grande intimidade com o Senhor, aproveitando seus momentos livres para visitá-Lo no Santíssimo Sacramento na capela. Até que, em meados do mês de setembro de 1763, a amiga Cecília Albergoti, da alta sociedade de Arezzo, visita suas antigas mestras beneditinas para despedir-se, pois resolvera ser religiosa carmelita no mosteiro de Florença.

Ana, ao escutar a palavra Carmelo, vê-se tomada por uma fecunda chama que a impele. Sente dentro de si uma voz que lhe diz: “Eu sou Teresa de Jesus e te quero entre as minhas filhas!” Consciente do chamado, decide entrar para o Carmelo, esperando somente completar seus 17 anos exigidos pelo pai.

Ana Maria, ao bater as portas do Carmelo, em 01 de setembro de 1764, depara-se diante de uma comunidade carente de vocações e de monjas envelhecidas, porém firmes na vivência do espírito teresiano, herdado por Santa Teresa de Jesus, reformadora da Ordem Carmelitana. Após ter vivido seu primeiro período de prova sob a guia da vice-mestra de noviças, Madre Ana Maria de Santo Antônio, ela é admitida no capítulo da comunidade para a tomada do santo hábito da Virgem do Carmo, no dia 10 de março de 1765. Essa comunidade discerniu como nome religioso Teresa Margarida do S. Coração de Jesus conforme seu pedido.

Enfim, começa, dentro do claustro do Carmelo, sua via de perfeição, auxiliada pela graça divina e pelo Pe. Ildefonso de São Luiz Gonzada, orientador espiritual da Santa até a morte. Aos 12 de março de 1766, ela professa seus votos, adiantando seus votos solenes, recebendo o véu preto das professas.

Para Irmã Teresa Margarida, o dia a dia dentro do Carmelo se resumia, mergulhada por uma atmosfera de oração e silêncio, em uma entrega de contínuo amor ao Coração de Jesus, servindo, com a mais perfeita caridade, suas irmãs, “seus anjos”, como as chamava. Teve particular experiência mística com a vida escondida de Cristo em Nazaré. Procurou, a partir dessa compreensão, a presença de um Deus que se revela, escondidamente, no silêncio que o seguinte mistério revela: viver “abscôndita cum Christo in Deo” (Cl 3,3).

Em 7 de março de 1770, afligida por uma doença, uma peritonite perfurada, depois de horas de sofrimento, falece sem alarde, realizando em si seu desejo de escondimento. Seu corpo permanece incorrupto até hoje no Convento de Florença. Suas virtudes heroicas foram aprovadas e declaradas pelo Papa Gregório XVI, em 1839; em 1929, é beatificada pelo Papa Pio XI e foi canonizada no dia 19 de março de 1934.

Viveu, tendo como lema, a frase: “Deus é Amor!” (1Jo 4,8). Foi declarada, na espiritualidade carmelitana, “o mais puro modelo de uma santidade sem contaminação de elementos estranhos” (Ephemerides Carmeliticae – 1959) e a mais perfeita espiritual filha da seráfica Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz.

Luiz Eduardo Coutinho Cardoso Junior,

(ind. Postulante Carmelita Descalço)

Convento Beata Elisabete da Trindade – Paranoá – DF.

10/02/2015

beata1BEATA MÍRIAM DE JESUS CRUCIFICADO

“Espírito Santo, inspire-me

Amor de Deus, consuma-me

Pelo verdadeiro caminho, conduza-me

Maria, minha mãe, olhe-me.

Com Jesus, abençoa-me

De todo mal, de toda ilusão, de todo perigo, preserve-me. Amém”.

Míriam, a carismática; Pequena Árabe; Míriam Baouardy ou, para nós, seus irmãos carmelitas, Irmã Míriam de Jesus Crucificado.  Nascida em 5 de janeiro de 1846, na Galileia, logo aos 3 anos ela fica órfã, indo morar com os tios.

A Beata Míriam de Jesus Crucificado é uma daquelas almas apaixonadas pelo Senhor. Alma cultivada pelo próprio Jesus no jardim do Carmelo e regada com a humildade. De fato, a beata distingue-se mais pela humildade de sua vida no escondimento e imolação diária na clausura do Carmelo do que pelos fenômenos místicos que a envolvem. Estigmas, dom da profecia, revelações, ataques do demónio ou êxtases, nada disso se compara à sua humildade em praticar a obediência aos superiores.

Míriam é a prova de que a mística confirma a teologia. Isso porque, no século XII, Santo Tomás de Aquino provou, pela Teologia, ser possível um anjo bom possuir um corpo, tal qual ao anjo mal é possível. Entretanto, o santo afirma que nunca conheceu um caso real em que esse fenômeno tenha ocorrido. A Beata Míriam é esse caso real que ratifica a teoria de Santo Tomás de Aquino.

Em 1878, a Beata Míriam participou na construção de um Carmelo em Belém, no lugar onde, se veio a saber mais tarde, Davi foi ungido Rei de Israel. Sua Páscoa foi no dia 26 de agosto de 1878, aos 32 anos.  Em 13 de novembro de 1983, foi solenemente beatificada por São João Paulo II. Para este ano do V Centenário do nascimento de nossa Santa Madre Teresa de Jesus, o Papa Francisco aprovou a canonização da beata árabe para o próximo dia 17 de maio, em Roma. Seu testemunho une católicos e árabes na Terra Santa para celebrar o Deus Único.

Com sua vida, a Beata Míriam de Jesus Crucificado nos ensina que, para vivermos o Reino de Deus já aqui na terra, não é necessário muita coisa: apenas ter um coração disposto a entregar-se sem reserva a Deus e no cotidiano da ordinariedade da vida, fazer com amor o que é de nossa responsabilidade.

Mesmo tendo uma profunda vida mística, a beata nunca se eximiu das responsabilidades que a incumbiam as irmãs do seu Carmelo, mesmo quando foi necessário construir novas fundações, lá ia a Irmã Míriam enfrentar os trâmites e desafios!

Peçamos a ela que nos ajude a perceber os sinais da presença de Deus no nosso dia a dia, e a respondermos com generosidade a Seu Chamado.

Beata Míriam de Jesus Crucificado, rogai por nós.

 

Adriano Narciso e Bruno Costa

beata2BEATA ELISABETE DA TRINDADE

Elisabete da Trindade é uma jovem carmelita descalça, cheia de vida e de entusiasmo. Ao longo dos seus 26 anos de vida, soube vivenciar o mistério da Trindade que habita no coração humano.

Elisabete nasceu em um acampamento militar, no campo de Avor, perto de Bourges, França, pois seu pai era capitão do exército francês. Desde muito cedo Elisabete mostrou ser uma criança turbulenta, muito viva, faladora, precoce e de temperamento colérico. No entanto, sua mãe, atenta, soube modelar a fúria de Elisabete e fazer sobressair nela a ternura. E de tal maneira a ternura ganhou terreno que o maior castigo de Elisabete acontecia quando sua mãe, à noite, se despedia dela sem lhe dar um beijo. Então, Elisabete compreendia que não tinha se portado bem, e, meditando fazia exame de consciência e corrigia-se. Ainda Elisabete era uma criança quando a família se mudou para a cidade de Dijon. Aqui Elisabete, com apenas 7 anos e 2 meses, perdeu o pai tão querido.

O dia da primeira comunhão, a 19 de abril de 1891, foi “o grande dia” da vida de Elisabete, tinha então 10 anos, pois nascera no dia 18 de julho de 1880.  Chora de alegria. Ao sair da igreja, ao descer as escadas diz à sua amiguinha Marie-Louise Hallo: “Não tenho fome, Jesus saciou-me”.

Estudou piano desde os 8 anos de idade no Conservatório vindo a tornar-se uma “excelente pianista”, segundo a expressão do seu professor de música. Participou em concertos organizados, e, os jornais falaram do seu grande talento ainda mal a menina chegava aos pedais do piano. Entre as músicas e os festivais, entre os bailes, as férias e as diversões foram decorrendo os anos de Elisabete.

Estava perto dos catorze anos de idade quando se sentiu irresistivelmente atraída por Jesus. Escreve futuramente: “Ia fazer catorze anos, quando um dia, durante uma ação de graças, me senti irresistivelmente inspirada a escolher Jesus como único esposo e imediatamente a Ele me liguei por um voto de virgindade. Não nos dissemos nada, mas entregamo-nos um ao outro de tal maneira que a resolução de lhe pertencer totalmente tornou-se em mim ainda mais definitiva”. Aos 18 anos sua mãe pretendeu casá-la com esplêndido noivo, mais Elisabete responde: “ o meu coração já não está livre, dei-o ao Rei do reis, já dele não posso dispor”. O desgosto da mãe foi grande.  Mas foi mais amargo quando soube que Elisabete queria entrar para o Carmelo, onde tantas vezes tinham entrado e que ficava ali apenas 200 metros de sua casa. Entre lágrimas a mãe apenas consentiria na entrada da filha no Carmelo quando essa alcançasse a maioridade, aos 21 anos de idade.

No dia 2 de agosto de 1901, Elisabete entra definitivamente nessa bela montanha do Carmo que pela sua solidão e beleza a atrai irresistivelmente. A partir de então o seu nome será Irmã Elisabete da Santíssima Trindade. “Gosto tanto do mistério da Santíssima Trindade! É um abismo no qual me perco. Deus em mim, eu n´Ele. É o grande sonho da minha vida. Para uma carmelita viver é estar em comunhão com Deus desde a manhã até à noite, e desde a noite até de manhã. Se Deus não enchesse as nossas celas e os nossos claustros, oh!, como tudo seria vazio! Mas é Ele que enche toda a nossa vida fazendo dela um céu antecipado”.

Elisabete tomou o hábito a 8 de Dezembro de 1901. Iniciada a vida de noviciado a paz e a felicidade mudou-se em noite escura. No decurso do ano de 1902, o sofrimento interior visita Elisabete. Está numa grande neblina. Há dias de confusão e, em certas horas a angústia e a tempestade. Mas ela ama o Crucificado ressuscitado e entrega-se a Ele cegamente.  Foi o momento da purificação interior. Com a profissão religiosa, que fez a 11 de janeiro de 1903, recobrou a paz e a serenidade interior. Depressa Elisabete descobriu a sua vocação. Lendo São Paulo descobriu que ela devia ser o “louvor da glória de Deus”. Esta ideia e esta vocação serão o rumo e o norte de Elisabete da Santíssima Trindade: “louvor e glória” é uma alma que mora em Deus e o ama com amor puro, amante do silêncio qual lira mantida sobre o toque misterioso do Espírito Santo, fazendo sair de si harmonias divinas. “Louvor e glória” é uma alma que contempla a Deus em fé simples e permanece como um eco perene do eterno cântico celeste. O segredo da felicidade é não se preocupar consigo mesmo, é negar-se em todo o momento”.

Seguindo o caminho que é Cristo, Elisabete entrou no mistério de Deus através de Maria a quem gosta de chamar a Porta do céu. Seguindo os pais e mestres Teresa de Jesus e, sobretudo João da Cruz, de quem constantemente fala nos seus escritos, Elisabete mergulha no mistério das Três Pessoas Divinas, nesse Oceano sem fundo que é a Santíssima Trindade e que ela sente envolvê-la por dentro e por fora. Mas foi a vivência total daquela frase de São João da Cruz: “a alma perfeita e unida a Deus em tudo encontra alegria e motivo de deleite até naquilo que entristece os outros, e sobretudo alegra-se na cruz” que levou  Elisabete a perder-se em Deus como uma gota de água no Oceano, segundo a sua própria expressão.

Foi perfeito louvor da glória de Deus. Com apenas 26 anos se encontrava preparada para voar para a paz: “tudo é calma, tudo fica tranquilo e é tão bom, a paz do Senhor”.

Nos fins de março de 1906, foi colocada na enfermaria. Sentia-se feliz por morrer carmelita.  As Irmãs rezavam pela sua cura e Elisabete juntou o seu pedido às orações da comunidade, mas sentiu que Jesus lhe dizia que os ofícios da terra já não eram para ela.

No dia 1 de novembro comungou pela última vez e dois dias antes da sua morte disse ao seu médico: “é provável que dentro de dois dias esteja no seio da Santíssima Trindade. É a Virgem Maria, aquele ser tão luminoso, tão puro, com a pureza do mesmo Deus, quem me levará pela mão e me introduzirá no céu tão deslumbrante”.

A sua última noite foi terrivelmente penosa, pois às suas horríveis dores juntou-se-lhe também a falta de ar, mas ao amanhecer Elisabete sossegou, e inclinando a cabeça abriu os olhos, e exclamou: “vou para a Luz, para o Amor, para a Vida”, e adormeceu para sempre. Era a madrugada do dia 9 de novembro de 1906.

Oração:

Ó Deus, rico em misericórdia, que revelastes à Irmã Elisabete da Trindade o mistério da vossa presença na alma dos justos e fizestes dela uma adoradora em espírito e verdade, concedei-nos por sua intercessão que, permanecendo no amor de Cristo, mereçamos ser transformados em templos vivos do Espírito Santo de amor, para o Vosso louvor e glória infinita. Amém.

Frei Cleber da Trindade, ocd

carmoNOSSA SENHORA DO CARMO NOS RECEBE COM ALEGRIA

Hoje visitar o site do Carmelo é como visitar o Carmelo. E na porta do Carmelo Santa Teresa diz que colocava numa porta São José, na outra a Virgem Maria, e no centro está Jesus. É bom conhecer os dois porteiros, mas desta vez me foi pedido para falar sobre a porteira mor “nossa Senhora do Carmo”. É fácil falar da Mãe Maria, que sempre para nós carmelitas é mais Mãe que rainha, é mais irmã que tudo. É ela que nos dá Jesus e nos leva para Jesus e nos ensina como devemos escutá-lo e repete aos nossos ouvidos duros: “fazei tudo o que ele vos disser”. Nós Carmelitas honramos Maria com o título que vem de longe e que afunda as suas raízes no monte Carmelo. Por isso se chama Nossa Senhora do Carmo.

O monte Carmelo é um símbolo importante na tradição. É o lugar onde Elias pela primeira vez deslumbrou o sinal da nuvenzinha, grávida de água, num tempo de extrema seca. O deserto, a terra árida é a humanidade que espera a chuva que é Cristo, a água viva que chega até nós através da Virgem Maria, nossa mãe e Mãe de Jesus. A missão de Maria não é ocupar o lugar de Jesus, mas ser o meio escolhido por Deus para ser fecunda pela força do Espírito Santo. É no seio de Maria que o Verbo se fez carne, foi revestido de carne humana e veio entre nós. O sim de Maria transformou o mundo para sempre. Nunca nós agradeceremos suficientemente a Maria pelo seu sim, dado com disponibilidade e com ternura de amor. O mesmo São Bernardo, num ímpeto de amor por Maria a estimula a dar rapidamente o seu sim ao anjo para que termine o tempo da espera e inicie o novo tempo da salvação.

No Carmelo Maria é para nós modelo de algumas atitudes fundamentais da vida:

  • modelo da escuta da palavra de Deus: ela é toda silêncio e oração; sabe acolher a palavra de Deus com fé e com amor infinito. No mundo onde a escuta se faz sempre mais difícil porque somos saturados de tantas palavras e de tantas vozes é belo redescobrir a beleza da escuta no silêncio do amor e saber tudo guardar no nosso coração e meditá-la. Os meios de comunicação, como a internet, ipod, telefone celular, não devem nos afastar da alegria da escuta da voz de Deus. Devem ser simplesmente meios que nos ajudam a entrar mais adentro de nós mesmos, no nosso “castelo interior”, onde habita o Senhor com sua luz e seu amor.
  • A segunda coisa que devemos aprender na escola de Maria é que ela é modelo de santidade, de perfeição, aquela que viveu melhor do que todos os seres humanos a atitude da fé, da esperança e da caridade.

Nossa Senhora do Carmo é ela que nos doa também como símbolo de sua proteção o escapulário, que não é um “meio mágico de devoção”, mas um hábito, uma veste de amor. Nós nos revestimos disto para que possamos viver com mais facilidade o nosso caminho de volta para a casa do Pai.

Olhemos a Virgem Maria, sob o título de nossa Senhora do Carmo, como a Mãe bondosa e delicada que nos toma pela mão, nos conduz até Jesus e nos diz de fazer tudo o que ele nos disser. É ele que é o caminho, a verdade, a vida, a porta, mas Maria é o pequeno caminho que nos leva ao grande caminho Jesus. Visite este site do Carmelo da Santíssima Trindade em Trindade, e Maria te abre a porta e te acolhe. Boa estadia e que seja protegido pela Virgem Maria!

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Frei Patrício Sciadini, ocd.