Sem categoria › 11/10/2015

HOMILIA – QUINTO DIA DA NOVENA DE SANTA TERESA DE JESUS

Quinto dia da Novena de Santa Teresa de Jesus

“Fixar o olhar em Deus”

 

Olhar fixamente para Deus é não desviar sua atenção para outras coisas que não sejam de Deus.

Assim, fixar nossos olhos em Deus, ou ter os olhos fixos em Jesus, significa, antes de tudo, fazer dele uma prioridade. Nós vivemos fazendo muitas coisas, temos que realizar nossas tarefas e responsabilidades com esmero e dedicação pois as pessoas cobram de nós que cumpramos bem nossas incumbências.  Contudo, em meio a tantas atividades podemos esquecer das coisas que são importantes. Por exemplo, uma mãe pode cuidar muito bem de sua casa, organizando tudo com capricho e zelo (limpeza, a comida, roupas do marido e filhos…), mas se esquecer de conversar com os seus, conhecê-los, saber o que se passa em seus corações, gastar seu tempo descobrindo as mudanças que se sucedem em suas mentes, ela não passará de uma funcionária, cuidadora da família.

No início da novena falávamos do exemplo de uma pessoa que vai fazer o café da manhã. Quando ela põe o leite para ferver é preciso uma atitude de vigilância. Podemos fazer mil coisas ao mesmo tempo: esquentar o pão, coar o café, colocar mais açúcar no açucareiro, arrumar a mesa… mas a atenção precisa estar voltada para o leite. Se descuidarmos por um segundo ele entorna. Na nossa vida também fazemos mil coisas, mas nunca podemos esquecer de estar com “os olhos fixos em Deus”.  É isso que vai nos dar a certeza de estarmos no caminho certo, de priorizarmos as coisas que são fundamentais em nossa vida e não desviarmos nosso olhar para valores secundários.

São João da Cruz, um grande companheiro de Santa Teresa de Jesus escreveu um poema lindíssimo chamado “Cântico Espiritual” e num determinado momento esta poesia diz: “não colherei as flores do caminho”. O que significa isso: Não colher as flores do caminho? Imaginemos que estamos andando por um caminho e, claro, queremos chegar a um destino. De repente nosso olhar se sente atraído pela beleza de algumas flores e nos sentimos tentados a colhê-las. Isso não fará com que nos distraiamos com coisas secundárias e desviemos nosso olhar daquele que é o real objetivo? Colher as flores, portanto, significa dar valor às coisas periféricas e esquecer do fundamental que é Deus.

No Livro das Moradas (ou  Castelo Interior), Santa Teresa fala do jovem rico que não conseguiu seguir a Jesus. “… é preciso mais para que o Senhor possua por completo a alma, não basta dizer que o desejamos, como não bastou ao jovem a quem o Senhor perguntou se queria ser perfeito. Desde que comecei a falar destas moradas, tenho-o diante dos olhos. Porque somos como ele, sem tirar nem por…” (3M 1,6)

Jesus disse: “Se quiseres ser perfeito…”  É possível seguir a Jesus e não ser perfeito? Seria possível ao jovem rico ficar com sua fortuna e seguir Jesus?  Quando Jesus toca no assunto da perfeição, ele não está pedindo de nós que sejamos perfeitos a ponto de nunca errarmos. Não é desse tipo de perfeição que ele nos propõe. Para algumas pessoas ser perfeito significa nunca errar.  O erro não faz parte do caminho delas. Então quando elas erram é o fim do mundo. Temos que aprender a aceitar os nossos erros. O erro em si não é algo negativo. Faz parte do processo de aprendizado. Se você erra é porque ainda não aprendeu. É só isso. Por exemplo, você chega num novo emprego e pedem para fazer algo que nunca tinha feito antes… Acerta na primeira tentativa? Possivelmente não. Mas com o tempo e várias tentativas (muitas delas malsucedidas) acaba aprendendo.  O erro é uma parte necessária do processo de aprendizagem. Os que não querem errar nunca aprenderão! 

Qual seria, então, a perfeição que Jesus propõe ao jovem rico?

* A perfeição de Deus que sabe despojar-se de tudo por amor. Deus despojou-se do que tinha de mais precioso (seu Filho Jesus)  para resgatar a humanidade. E Jesus, o Filho de Deus, despojou-se de si mesmo para fazer a vontade do Pai. (cf Hino aos Filipenses). O despojamento só é possível a quem tem claro quais são as suas prioridades.  Deus partilhou conosco de seu maior bem…  Para seguir o caminho de Jesus é necessário também viver a dimensão da partilha.

* A perfeição de fazer de Deus nosso valor Absoluto e nada mais ser importante do que isso. Nada ou ninguém deve estar acima de Deus: nenhum bem material, espiritual, por melhores que sejam. Dinheiro, saúde, trabalho, família, amigos…  Essas coisas são ruins? Claro que não…  Mas se Deus não estiver na base destes valores tudo vai ruir e será sem sentido.

Jesus, quando ouviu a resposta do jovem rico fixou nele um olhar carinhoso, afetuoso, porque percebeu que o seu coração estava preparado para um voo mais alto e, então fez a ele um convite decisivo: “-Vai, vende o que possuis, distribui aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!”  Ele podia ser muito mais, mas não quis pois os bens materiais tomavam conta do seu coração.

Só um coração LIVRE é capaz de encontrar a Deus. Enquanto não libertarmos o nosso coração de tantas preocupações não haverá espaço para Deus morar nele.

“O mestre da oração não é indiferente ao nosso olhar, deseja-o, provoca e espera. Será muito que ponhais nele os olhos para contemplá-lo? Todos os males, Senhor, nos vem de não termos os olhos fixos em Vós. Se não olhássemos outra coisa senão somente o caminho, depressa chegaríamos, mas damos mil tropeços e perdemos o rumo porque, repito, não pomos os olhos naquele que é o verdadeiro caminho”.

Frei Marcos Matsubara

 

 

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