Sem categoria › 10/10/2015

HOMILIA – QUARTO DIA DA NOVENA DE SANTA TERESA DE JESUS

                                                      Quarto dia da Novena de Santa Teresa

                       “Sejamos verdadeiros amigos de Deus que abraçam a sua causa, a Igreja”

 

“O mundo está sendo tomado pelo fogo!” escreveu Santa Teresa. Esta exclamação pode parecer muito dramática, exagerada demais. Mas é preciso lembrar que o séc.XVI, época em que viveu Teresa de Jesus, foi um tempo de profundas mudanças para toda a humanidade. Dentro e fora da Igreja aconteceram transformações intensas. Três fatos importantes marcam aquele período:

  1. nos campo das artes a transição do Renascimento para Barroco (o Barroco surgiu como uma arte que visava a propaganda da Igreja Católica que era ameaçada pelo surgimento do Protestantismo),
  2. no campo religioso a Reforma Protestante (com Martinho Lutero, Calvino, Zwinglio, Henrique VIII) que colocou em cheque a hegemonia da Igreja Católica
  3. e, por fim, as grandes navegações que ocasionaram a conquista de novas terras, o enriquecimento de Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra, bem como o contato com novas culturas e novas técnicas (pólvora, bússola, astrolábio, desenho de novos mapas, redimensionamento do mundo conhecido até então. O início da Idade Moderna, vivido por Santa Teresa significou em todos os sentidos a ampliação dos horizontes humanos.

Santa Teresa preocupa-se, particularmente, com dois acontecimentos fortes :

*a quebra da unidade cristã na Europa (ocasionada pelo surgimento do Protestantismo) que resultou em inúmeras guerras e mortes. Ela preocupa-se especialmente  com os “estragos causados na França”. As notícias que chegavam a ela eram de igrejas sendo incendiadas e derrubadas, profanações, divisão no clero e muitas guerras.

* o imenso horizonte do novo mundo (do continente americano) com suas perspectivas de evangelização. No início, quando viu seus irmãos partindo para o Novo Mundo, o continente Americano, interpretou essa marcha como uma opção religiosa e heroica, inclusive chegou a crer que seu irmão Rodrigo morreu como um mártir da fé em terras chilenas lutando contra os araucanos. Mas sua opinião mudou quando chegou ao Carmelo de São José de Ávila,   o franciscano frei Alonso de Maldonado, um seguidor do Padre Bartolomeu de Las Casas ( religioso conhecido por defender os índios que eram exterminados pelos europeus, particularmente no México e Caribe) e apresentou a Teresa uma versão mais realista daquela situação e de quantas almas estavam sendo perdidas. A santa ficou arrasada.  No Livro da Fundações ela partilha sua dor: “Sobreveio-me uma profunda tristeza, e eu fiquei quase fora de mim” (F 1,7).  Assim, ela chega a escrever para seu irmão Lourenço (que naquela ocasião encontrava-se em Quito, Equador), suplicando-lhe que regressasse à Espanha. (carta n.25 – 17 de janeiro de 1570). Nesta mesma carta, ela confessa sua dor pelo sofrimento causado aos indígenas: “Isto é o que me faz sofrer: o considerar quantas se perdem, em particular esses índios, que não me custam pouco”. O Senhor lhes dê luz!”  E continuando a escrever, faz uma dura crítica ao modo dos europeus se aproximarem dos índios: “… muitas pessoas me falam e muitas vezes não sei o que pensar, senão que somos piores que animais, pois não entendemos a grande dignidade de nossa alma” .

Resumindo tudo, podemos dizer que o conhecimento de Teresa a respeito das coisas que aconteciam  na Europa e nas Américas (com seus respectivos problemas humanos e eclesiais) era algo que estava acima da sensibilidade média de uma mulher culta de seu tempo.

Santa Teresa reconhece que a Igreja é sua Mãe. Ela se vê como uma “filha da Igreja” e a ela se submete. Na época da santa, a Igreja vivia o tempo sombrio da Inquisição e seus escritos (os livros que Teresa escreveu) foram severamente investigados e controlados pelas autoridades eclesiásticas de então. Mesmo assim, Teresa acata e submete-se obediente às autoridades da Igreja. No início do Livro “Caminho de Perfeição” ela escreve assim: “Em tudo o que nele disser, sujeito-me ao que ensina a Santa Madre Igreja Romana e, se alguma coisa for contrária a isso, a razão será a minha ignorância. Assim peço  aos letrados que o virem, por amor de Nosso Senhor, que o vejam com muito cuidado e o corrijam se houver algum erro nele quanto a isso e a muitas outras coisas”.

Mas não foram somente seus escritos que estiveram na mira dos investigadores. Também suas experiências místicas (e Santa Teresa teve muitas: arroubamentos, êxtases, visões, transverberações, locuções…) foram vistas com muita desconfiança e em virtude de acusações falsas fizeram a santa sofrer muito.  As reservas e suspeitas sobre Teresa de Jesus não terminaram nem mesmo com a sua morte.

Apesar disso, jamais enfraqueceu seu amor pela Igreja. Para ela a Igreja é santa, mas ao mesmo tempo era afetada por grandes males. Teresa vê também a Igreja como depositária dos sacramentos que não dissimulam os próprios males, mas os eliminam. Por isso ela acorre aos sacramentos com fé viva e louva a Deus por esse remédio e unguento para nossas chagas-pecados (os da Igreja? ), não somente curando-as por fora, mas extirpando-as por inteiro (V 19,5).

Esta mulher encantadora soube dar respostas aos desafios da Igreja em seu tempo.

Em nossos dias a Igreja, a barca de Jesus Cristo Nosso Senhor, também enfrenta as tempestades próprias de nossa história. O papa Francisco tem trazido à tona importantes questões para que sejam amplamente discutidas  por todos (não somente a hierarquia da Igreja, nem os cristãos católicos, mas quer a colaboração de todos os homens de boa vontade). Evidentemente seus questionamentos e propostas são, por um lado recebidos com grande alegria, mas por outro enfrentam inúmeras oposições dentro e fora da Igreja. Dentro da Igreja as resistências são maiores entre as instituições mais tradicionalistas que não querem mudanças, fora da Igreja sua palavra é esvaziada por quem não deseja vê-lo despontar como o maior líder mundial deste nosso tempo. O Papa Francisco é, reconhecidamente, nestes nossos dias a voz mais profética que não se cala diante das mazelas do homem contemporâneo.

Um dos assuntos que incomodam algumas lideranças internas da Igreja é o discurso do Papa a favor da pobreza. Acusam-no de marxista ou comunista porque ele insiste que a Igreja deve ser pobre e estar a serviço dos pobres.  Não foi o próprio Jesus que nos ensinou isso?  Francisco tem criticado a postura do clero (padres e bispos) que fazem do serviço religioso uma carreira e querem viver uma vida cômoda em seus gabinetes.  Por isso ele tem pedido insistentemente para que todos saiamos das sacristias e nos dirijamos às periferias existenciais..

Assim também o Sumo Pontífice propõe a abertura de nossas comunidades para a presença e participação de casais de segunda união.  Como temos acolhido essa questão delicada em nossas comunidades e paróquias?

Nem é preciso lembrar do quanto o Papa Francisco tem sido corajoso ao denunciar a situação desumana a que são submetidos milhares de refugiados que fogem de situações dramáticas em seus países (Síria, Iraque, Afeganistão…) fugindo das guerras, violências e perseguições. A comunidade internacional precisa dar uma resposta urgente a esta situação. São homens , mulheres, crianças, idosos que se deslocam para a Europa e outros continentes em busca de paz, mas nem sempre encontram acolhimento. Muitos morrem pelo caminho.

A Igreja não pode manter-se alheia a estas e tantas outras situações difíceis que acontecem ao nosso redor. Santa Teresa nunca foi alheia ao que acontecia dentro e fora da Igreja. Que ela nos ensine a sermos generosos e corajosos para encontrarmos juntos soluções para estes desafios.

Frei Marcos Matsubara

 

 

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