Sem categoria › 09/10/2015

HOMILIA – TERCEIRO DIA DA NOVENA DE SANTA TERESA

                                                

The shining, holy cross

           Terceiro dia da Novena de Santa Teresa

                                                              Cruz: Selo dos fortes amigos de Deus

 

A cruz é o símbolo do cristão de modo que todos nós, os católicos, vivemos fazendo o sinal da cruz em todo tempo: na liturgia da missa, quando passamos em frente a uma igreja, no início das viagens, antes da partida do futebol… Para muitos parece ser apenas um gesto mágico de proteção contra os maus espíritos. Mas será que entendemos o que, de fato, significa a cruz em nossas vidas? Quando nos sobrevém as experiências cruciais (a palavra crucial deriva de cruz), quando a cruz se apresenta concretamente a partir da dor, morte, doenças, perdas, perseguições e tantas outras experiências que nos conduzem ao caminho do Calvário, qual tem sido nossa reação?  Desespero? Revolta? Desânimo? Ou temos carregado nossas cruzes com coragem e dignidade?

Para Teresa de Jesus, a cruz não é algo secundário no caminho do cristão e dos(as) carmelitas. Pelo contrário, é uma realidade irrenunciável da qual não podemos fugir. Ela dizia para suas monjas: “aquela que não quiser cruz que não seja razoável, não sei para que está no mosteiro” (C13,1)

Quando a cruz aparece em nossas vidas é preciso ter paciência e uma grande confiança em Deus. É muito significativo, neste sentido, um fato que aconteceu no fim da sua vida, em maio de 1582. Havia ingressado no Carmelo de Sória uma jovem da alta nobreza. No noviciado ela atravessava um período de aridez e muitas provas familiares e compartilhou com Santa Teresa suas dificuldades. Esta respondeu-lhe assim, através de uma carta:

“-De nenhum modo se aflija com isso. Esforce-se em ajudar Deus a levar a cruz, e não se prenda às facilidades, pois só os soldados mercenários é que querem logo o pagamento. Sirva de graça, como fazem os grandes, ao Rei. Com sua alma esteja o Rei do céu”.  (carta 412,4) janeiro 1582.

O que Santa Teresa está querendo dizer, é que existem duas categorias de cristãos: os que são filhos de Deus e fazem as coisas por amor a Deus e outros que são como “funcionários de Deus” (ela os chama de mercenários) que são os que vivem exigindo de Deus o pagamento e a recompensa por suas obras. Estes segundos, como conseguirão carregar as suas cruzes, se elas nos pedem uma boa dose de generosidade e gratuidade?  Só o amor será capaz de nos motivar a carregar nossas cruzes. Quem não for capaz de fazer nenhum sacrifício ou renunciar a algo por amor, nunca saberá o que é ser filho de Deus, pois o verdadeiro Filho de Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor, fez de toda a sua vida uma constante doação e um contínuo sacrifício por ao Pai e ao próximo.

Nos escritos de Teresa encontramos inúmeras citações bíblicas que fazem referência à cruz. Estas passagens da Sagrada Escritura alimentam a sua piedade:

“Toma a tua cruz e segue-me” ( V 15,13)

“Não busco outra glória a não ser na cruz do meu Senhor (Carta 264)

“Estou crucificado para o mundo” (V 20,11)

Mas sobretudo, Teresa meditou sobre o mistério da cruz no contexto da Paixão de Jesus. Essa meditação conduziu-a a um grande crescimento espiritual. Do início de sua caminhada espiritual dizia que tinha “um coração tão duro que a leitura de toda a Paixão não arrancaria de mim uma lágrima”. Depois de uma longa caminhada de conversão,  seu coração havia mudado radicalmente: “começava a chorar por causa da Paixão de Nosso Senhor e não parava”. (4M 1,6)

A vida espiritual de Teresa era baseada numa intensa prática da ascese. A ascese é um conjunto de práticas e exercícios espirituais que visa a purificação da alma. É como se fosse o programa de treinamento de um atleta, que precisa renunciar a muitas coisas para chegar ao seu objetivo, acordar cedo, treinar, fazer exercícios árduos, controlar a dieta, enfim, precisa submeter-se a uma rigorosa disciplina. De certa forma é assim a vida dos santos: feita de um esforço contínuo e muita disciplina. O lema fundamental da ascese vivida por Santa Teresa é: “ajudar a Cristo a levar a cruz”. Para isso é necessária uma determinada determinação para abraçar as cruzes que surgem em nossas próprias vidas. Assim ela escreveu no seu Livro da Vida: “Ajude-O a carregar a cruz e pense que o Senhor Jesus viveu nela por toda a vida, (…) e se determine, mesmo que esta aridez dure a vida inteira, a não deixar que o Cristo caia com a cruz”. (V 11,10).  Santa Teresa exortava a todos para que fossem como Cirineu, aquele que ajudou Nosso Senhor a carregar sua cruz e não deixar Jesus cair novamente sob a cruz.

No livro Caminho de Perfeição, capítulo 17,  número7, Santa Teresa explica por que sobrevém muitas cruzes aos que se aproximam de Deus: “Ele vos quer levar como almas fortes, dando-vos aqui a cruz que Sua Majestade sempre teve. E que maior amizade do que escolher para vós o que escolheu para si?”  No fundo,   Teresa sabe que a experiência da cruz nos aproxima de Jesus e para ela quando as cruzes são maiores é porque Deus confia na força daquela pessoa em suportar tal peso e isso a torna companheiro(a) de Jesus que também carregou um peso tremendo em sua paixão. Em outras palavras aos seus amigos fortes, o Senhor divide os maiores pesos. O Papa Francisco costuma dizer uma frase que devemos sempre lembrar: Deus reserva suas batalhas mais difíceis aos seus melhores soldados” . Nada nos acontece por acaso, o ditado popular nos diz: Deus nos dá frio conforme o cobertor e precisamos  confiar em Deus e acreditar também que somos capazes de levar com dignidade e coragem nossas próprias cruzes. Ele não enviaria um peso maior do que pudéssemos suportar. O problema é que muitas vezes não estamos dispostos a fazer nenhum sacrifício nem por nós mesmos, quanto mais por Deus e pelo próximo…

Pregar Jesus Cristo crucificado nos dias de hoje é uma tarefa dificílima. São Paulo diz que “alguns são inimigos da cruz de Cristo” e nos dias de hoje esses inimigos tem aumentado consideravelmente. Vivemos numa época em que se prega o hedonismo. O hedonismo é uma filosofia que visa sobretudo o prazer, tem como objetivo e finalidade a busca do prazer humano.  Dentro desta postura não há espaço para sofrimentos e exigências. Todos somos de alguma forma atingidos por este pensamento que é veiculado nas propagandas, nos meios de comunicação, nas redes sociais, enfim o resultado é que todo mundo foge de tudo que tem “cheiro de sacrifício e renúncia” e por isso também foge da cruz.

Parece que estamos reféns de uma situação que criamos e não sabemos como sair dela. Não se pode estabelecer limites para nada. Então os pais nem sabem mais como educar seus filhos, pois muitas correntes da psicologia atual dizem que não se deve impor nenhum limite, nem  tolher a liberdade dos jovens e das crianças que devem poder fazer tudo o que querem. Estamos assistindo parados ao surgimento de uma geração que não quer submeter-se a nenhum tipo de sacrifício e ao mesmo tempo quer acesso a todos os bens sem ter que renunciar a nada.   Muitos pais esforçam-se em eliminar do caminho de seus filhos tudo o que seja indicação de dificuldade. Talvez pensando como muitos outros: “Quero dar para o meu filho o que eu nunca tive” ou “Não quero que meu filho passe pelo que passei”.  Até quando vamos querer disfarçar a realidade, construindo um caminho artificial e ilusório para as novas gerações?  Podemos até lutar bravamente para tornar o caminho dos mais jovens “mais fácil”. Mas a própria vida vai impor os seus limites a eles. Então não seria mais honesto prepará-los para a vida, educando-os de uma forma em que eles façam dentro de suas possibilidades, a experiência da cruz?

Carregar a cruz não é, nunca foi e nunca será uma tarefa fácil… Humanamente tendemos a rejeitá-la. Nenhum ser humano (que esteja no pleno domínio de suas faculdades mentais) gosta de sofrer. E a cruz traz consigo o sofrimento. E a única força capaz de dar sentido ao sofrimento é o AMOR.  Por isso, somente quando estamos fazendo uma profunda experiência do amor é que saberemos carregar nossas cruzes. O que devemos pedir ao Pai, então é isso: viver o amor. E Deus é o próprio AMOR. Deste modo, mergulhados em Deus, seremos capazes de tudo até mesmo de abraçar as nossas cruzes (e cada qual sabe exatamente qual é a sua) dando sentido ao que parece não ter sentido…  Peçamos isso ao Pai. Pedi e recebereis, procurai e encontrareis,  batei e vos será aberto…

 

 

Tags:

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.