Sem categoria › 12/10/2015

HOMILIA – SEXTO DIA DA NOVENA DE SANTA TERESA DE JESUS

                                            Sexto dia da Novena de Santa Teresa de Jesus

                                                            Oração como trato de amizade

 

Santa Teresa de Jesus é conhecida como Mestra de Oração. A partir de sua vida e escritos, ela ensina a todos o caminho da oração.  Para ela o conceito de oração é algo simples e original. Teresa entende oração como “relacionamento com Deus”. Orar significa estabelecer um relacionamento, um contato íntimo com Deus. E isso pode acontecera qualquer instante porque Deus está sempre aberto a estabelecer esta comunicação com o ser humano. Assim, Teresa descreve a oração como algo óbvio: “Para mim, a oração mental não é senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (V 8,5).

Na época de Teresa a palavra “trato” tinha um significado específico. Tratar significava negociar, comprar, vender mercadoria. Tratar era também ter conhecimento de alguém e conversar com ele. Deste modo, ela queria demonstrar que a oração era um modo de estabelecer uma relação direta e íntima com Deus, como se tratam os amigos.

A consciência de que Deus é um amigo cresce no coração de Teresa e na sua vivência de oração. Em sua época, como nos dias de hoje, muitas pessoas não conseguiam estabelecer uma relação de amizade com Deus. O respeito reverencial que devemos ao Senhor muitas vezes é transformado em medo e distância de forma que não conseguimos estabelecer uma relação de proximidade que exige uma verdadeira amizade. Por exemplo, tem muitas pessoas que não conseguem ser amigos de seus pais e mães, por causa do exagerado respeito que tem por eles. Assim essas pessoas amam seus pais, tem carinho por eles, mas não são amigos deles porque não criam um espaço de liberdade de partilha de pensamentos e experiências pessoais como fazem com seus amigos. Talvez lhes falte liberdade e confiança para que a amizade surja.  Isso pode acontecer também com Deus.

Teresa de Jesus vê a Jesus Cristo como um amigo. É justamente na pessoa de Jesus Cristo que ela percebe o quanto Deus é nosso amigo e Ele é a própria imagem do Deus-Amigo: “Com tão bom amigo presente (…) tudo se pode suportar; Ele é nosso auxílio e quem nos encoraja, nunca nos falta, é um amigo verdadeiro” (V 22,6).

Ela tem consciência de que, se por um lado, Deus está a todo momento querendo estabelecer uma comunhão profunda com o ser humano, esta comunicação necessita da colaboração das pessoas que tem a liberdade de abrir ou não o seu coração à ação divina. A oração como relação de íntima amizade acontece quando o homem (a mulher) se abrem sem reservas ao poder do Amor de Deus. “E vendo que O recebem, dá e se dá a Si mesmo. Ele ama a quem O ama; e como sabe amar! E quem bom amigo Ele é!” (V 22,17).

Esse modo de Teresa ver a sua relação com Deus, como um “trato de amizade” possivelmente deve ter sido fruto da influência dos teólogos dominicanos que, talvez, tenham explicado a ela que a virtude teologal da caridade consistia na “amizade do homem com Deus”. Essa era uma ideia de Santo Tomás de Aquino (amicitia quaedam hominis ad Deus) que aqueles teólogos que orientaram a Santa Teresa com muita probabilidade repassaram para ela.  A amizade tende a igualar os amigos. Pela caridade nos “igualamos” a Deus que é a caridade. Nivelando as condições cresce, então, a liberdade… Em outras palavras, cresce a comunicação.  Sabendo disso, Teresa exclama: “Que bom amigo sois, Senhor meu! Como vais brindando a alma, e sofrendo, à espera de que ela alcance a Vossa condição, suportando a sua, até que ela o consiga!” (V 8,6). ***

Não é possível uma verdadeira amizade, se não acontecer essa “igualdade de condições”, esse nivelamento entre Deus e o ser humano acontece em Jesus Cristo e se reatualiza em nós quando imitamos os gestos e as palavras de Jesus.

Facilidade ou dificuldade na comunicação com Deus.

Muitas pessoas tem dificuldade de estabelecer esta comunicação amistosa com Deus através da oração.  Santa Teresa escreve a este respeito: “Se falais com outras pessoas, por que vos haveria de faltar palavras para falar com Deus?  Não acrediteis nisso; eu, ao menos, não acredito que isso aconteça se vos acostumardes a dirigir a Ele. A falta de hábito é que nos torna estranhas(os) quando falamos com alguém, levando-nos a não saber como tratar com as pessoas; temos a impressão de não conhecê-las mesmo que sejam parentes nossas. Com a falta de comunicação o parentesco e a amizade se perdem” (C 26,9). A oração, portanto, é algo que devemos fazer com constância e regularidade. A amizade com Deus também se pode perder não porque Ele queira, mas porque nós nos decidimos a distanciarmos dele…

Assim como toda amizade verdadeira, a oração é algo que deve nos acompanhar durante toda a vida. Como podemos ser amigos de alguém apenas por alguns momentos (geralmente nos momentos fáceis e prazerosos) e depois descuidarmos das amizades?  Nossa vida de oração deve ser realizada de modo perseverante, mesmo em meio à secura, divagações, falta de concentração…

         “Voltando aos que desejam seguir por esse caminho (da oração) e não parar até o fim, que é chegar a beber dessa água de vida, como devem começar? Digo que muito importa, sobretudo, ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, venha o que vier, aconteça o que acontecer, sofra-se o que se sofrer, murmure quem quiser murmurar, mesmo não tendo forças para prosseguir, mesmo que se morra pelo caminho, ou não se suportem os sofrimentos que nele se encontram, ainda que o mundo venha abaixo” (C 21,2).

 

Frei Marcos Matsubara

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