Sem categoria › 13/10/2015

HOMILIA – SÉTIMO DIA DA NOVENA DE SANTA TERESA DE JESUS

                                 Sétimo dia da Novena de Santa Teresa de Jesus

                                                                 A humildade

 

Neste sétimo dia da Novena em ação de graças a Deus pelo dom de Teresa de Jesus à sua Igreja, temos um “grande problema”: a solenidade de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do nosso país, o Brasil. Com todo amor e respeito que temos à Santa Madre, não podemos deixar de fazer referência nem a esta motivação mariana, nem à Palavra de Deus que a liturgia nos propõe.

Vamos começar pela liturgia da Palavra, refletindo sobre o episódio das Bodas de Caná, narrado pelo evangelista João.  João é o mais “econômico” de todos os evangelistas. Os outros evangelhos (que chamamos de sinóticos = Mateus, Marcos e Lucas), são generosos nos relatos referentes aos milagres de Jesus, contando os inúmeros prodígios que Jesus realizou. João, pelo contrário, nos revela somente SETE milagres de Jesus e a estes milagres chama de “sinais”.

Os judeus gostavam de atribuir significados aos números e quando vemos os números na Bíblia devemos saber interpretar o que eles significam. Por exemplo, o número 40 significa um tempo adequado de preparação (40 anos caminhou o povo no deserto; choveu 40 dias e 40 noites durante o dilúvio; Jesus jejuou durante 40 dias…). O número 12 sempre está ligado à ideia de povo (12 eram as tribos de Judá, 12 eram os apóstolos que iniciaram o caminho da Igreja, novo povo de Deus).

E o número sete, o que significa? Sete é o número que indica inteireza, simboliza algo que está completo, não falta nada, dá a ideia de algo perfeito, de perfeição. Sete é igual a três mais quatro: Três simboliza as realidades do céu e quatro as realidades da terra (água, fogo, terra e ar – norte, sul, leste, oeste). O evangelho de João narra a vida de Jesus contada a partir de SETE dias e sete são os sinais realizados por Jesus em seu evangelho.

Se João narra somente sete sinais realizados por Jesus, por que ele escolheu o acontecimento tão sem importância como a participação de Jesus numa festa de casamento? Por que o primeiro sinal de Jesus foi transformar água em vinho, não poderia ele ter investido suas energias em algo mais útil e de maior relevância?  Parece até mesmo que ele está estimulando a bebedeira do pessoal.

Toda a narrativa das Bodas é simbólica e foi escrita com muito cuidado e com a intenção de falar muito mais do que aparentemente significa. João é um verdadeiro poeta que através das palavras vai ensinando muitas coisas de Jesus aos seus leitores. É um excelente teólogo. Vejamos as coisas que ele nos ensina.

  1. Primeiro: ele conta um fato acontecido num casamento. Mas os protagonistas deste casamento (o noivo e a noiva) não aparecem na narrativa: Quem é o noivo? Se Jesus é o noivo, quem é a noiva?  (Maria e os discípulos de Jesus= a comunidade dos crentes, a Igreja). As Bodas de Caná, portanto, falam do casamento de Jesus com sua Igreja.
  2. Seis talhas de pedra. (Seiscentos litros de água foram transformados em vinho!!!). lembremos da numerologia. O que significava o sete? Perfeição? E o seis? Seis é o número que não atingiu o sete. Seis simboliza aquilo que não chegou à perfeição. Faltou algo para completar. É imperfeito. Portanto, o seis simboliza a imperfeição, algo que falta algo… E o que estava faltando? Vinho? As talhas de água vazias simbolizam os ritos de purificação que os judeus costumavam fazer. Tudo era dividido entre puro e impuro e os judeus precisavam purificar-se a todo instante. As talhas vazias, por isso, simbolizam o vazio de uma religião que se vive a partir de ritos ocos e sem sentido, separando os fiéis entre puros e impuros.
  3. O mestre-sala não sabia, mas os “que estavam servindo” sabiam. O mestre-sala faz referência a todas as lideranças religiosas da época de Jesus que não o reconheceram como Messias. Eles não sabiam quem era Jesus. Por outro lado, aqueles que “estavam servindo”, os discípulos de Jesus que são chamados a conhecer Jesus através do serviço (estavam servindo), sabem quem Ele é. Através da nossa vida de serviço na Igreja, vamos testemunhando, conhecendo quem é Jesus.
  4. Guardaste o vinho melhor. O primeiro vinho simboliza o Antigo Testamento. O segundo vinho simboliza as novas realidades trazidas pela Boa-Nova de Jesus. E quais são as novidades trazidas por Jesus?

*A novidade de amarmos incondicionalmente o próximo, ainda que ele se declare nosso inimigo (amar os inimigos)

*De perdoarmos não somente sete vezes, mas setenta vezes sete.

*De oferecermos a outra face se alguém nos ofender

*De sabermos que a verdadeira recompensa não teremos aqui, mas nos Reino dos céus.

* De vivermos o verdadeiro amor, que é dar a vida “pelo irmão”.

 

A Virgem Maria foi quem melhor compreendeu esta novidade de Jesus. Ela esteve sempre junto do grupo dos seguidores de Jesus e é a Mãe deste grupo de fiéis, a Igreja. Simboliza a própria Igreja. Então, no momento em que, atenta ao que se passa ao seu redor, ela intercede junto ao Filho, dizendo: “Eles não tem mais vinho”, está também ensinando a Igreja a interceder pelas necessidades de toda a humanidade, antecipando, assim a alegria dos tempos messiânicos. Atitude de atenção, intercessão e serviço é o que a Virgem Maria nos ensina. E faz tudo isso de uma forma humilde. Ela realiza sua missão e simplesmente desaparece de cena. Ela diz aos que estavam servindo: “Fazei tudo o que Ele vos disser” e se retira de uma forma discreta e silenciosa.

Em um dos dias de nossa novena lembramos-nos das palavras de Santa Teresa:  “Quem não souber mover as peças no jogo do xadrez, mal saberá jogar, e se não souber dar xeque, não saberá dar mate. (…) daremos xeque-mate neste Rei Divino, que não poderá, nem quererá fugir de nossas mãos”. A Rainha é a peça que mais guerra pode mover neste jogo sempre contando com a ajuda de todas as outras peças. Não há rainha que force o Rei a se render como a humildade; foi a humildade que o trouxe do céu para se encarnar no seio da Virgem Maria e com a humildade nós O traremos preso por um fio de cabelo a nossas almas. Acreditai em mim: quem mais a tiver, mais o possuirá. E quem menos a tiver menos o poderá. Não consigo entender como pode haver humildade sem amor ou amor sem humildade, do mesmo modo que não entendo como se pode ter estas duas virtudes sem que haja um grande desapego das coisas criadas”. (C 16,1-2)

A palavra humildade deriva de “húmus”. Húmus é aquela terra argilosa rica em material orgânico e por isso mesmo muito fértil e apropriada para as plantações. Considerando a sua origem, a palavra humildade estaria ligada à ideia de terra, barro, chão… Assim pela humildade, reconhecemos nossa condição terrena, nossa pequenez e fragilidade de criaturas de Deus (fomos criados do barro. Adão foi modelado a partir do barro extraído da terra).

Para Santa Teresa a humildade é uma das virtudes mais elevadas do ser humano.  Quando, no seu Livro “Caminho de Perfeição” ela estimula suas irmãs à observância das Regras e Constituições, fala também de três coisas importantes para a vida espiritual:

  1. “amor de umas para com a outras”, ou seja, um amor mútuo, recíproco e boa vontade em acolhermo-nos uns aos outros com caridade e paciência.
  2. “desapego de todo criado”. Nada, nem ninguém deve estar acima do nosso amor e Deus: Nem riquezas, nem poderes, nem cargos, diplomas, projetos…
  3. “a verdadeira humildade, que, embora seja tratada por último, é a principal, abarcando todas as outras”. (C 4,4)

Por fim, para Teresa, ser humilde é caminhar unido a Deus. Ele é a Verdade que iluminará nossos corações para as coisas verdadeiras.  “Certa vez, eu estava pensando por que o Senhor aprecia tanto a virtude da humildade, de repente cheguei à seguinte conclusão: sendo Deus a Suma Verdade, e a humildade andar na verdade, eis aí a razão da sua grande importância”.  Portanto, podemos concluir que o humilde é aquele que caminha na verdade. Se é verdade que tem talentos, ele humildemente admite os talentos sem nenhuma vaidade, Se é verdade que tem dons, aceita-os sem querer escondê-los, pois reconhece que tudo nos vem de Deus. Mas também aceita nossa pobreza extrema. Andar na verdade é, deste modo, um caminho profundo de autoconhecimento e do conhecimento de Deus.  “Jamais chegamos a nos conhecer totalmente se não procuramos conhecer a Deus” (1M 2,90).

 

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