Sem categoria › 14/10/2015

HOMILIA – OITAVO DIA DA NOVENA DE SANTA TERESA DE JESUS

                                        Oitavo dia da Novena de Santa Teresa de Jesus

                                            O amor a Deus e aos irmãos – a caridade

 

O amor a Deus e amor ao próximo podemos traduzir por caridade. Embora muitas pessoas em nossos dias reduza a virtude da caridade a somente um gesto de “fazer o bem a um pobre ou necessitado”, como por exemplo dar esmola, o conceito de caridade dentro da fé cristã é bem mais profundo e amplo. A caridade é a síntese da vida cristã. Lembremos de que o próprio Jesus confirmou que os maiores mandamentos da Lei de Deus, ou seja, os mais importantes, são “amar a Deus e ao próximo” (Mt 22,36-40). Podemos dizer assim, que dentre tudo o que fazemos para vivermos bem, nada é mais importante do que viver a caridade, que é amar a Deus e aos irmãos.

Certa vez, São Paulo, escrevendo para a comunidade cristã de Corinto chama a atenção dos irmãos daquela comunidade porque lá estava acontecendo uma grande divisão e disputa entre os membros por causa dos carismas que cada qual tinha recebido. Naquela igreja haviam membros que tinham o dom da profecia, outros exerciam o dom de curar enfermos, outros ainda receberam de Deus o dom da Palavra (de falar e evangelizar as pessoas), alguns ainda haviam sido contemplados com o dom da sabedoria e da ciência para orientar bem as escolhas das pessoas… enfim, muitos eram os talentos e dons que o Espírito Santo havia distribuído entre os coríntios. No entanto, iniciou-se uma disputa entre eles e cada qual reivindicava para si e para seu próprio carisma uma maior importância. Um dos carismas mais desejados pelos coríntios era o dom das línguas, que alguns possuíam e despertavam então nos demais uma espécie de ciúmes e inveja…

Por isso, no capítulo 13 da primeira carta aos coríntios, São Paulo começa dizendo: “Ainda que eu falasse, todas as línguas (as dos homens e as dos anjos), mas não tiver amor (caridade) sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine.  O bronze é o material do qual fabricam-se os sinos, os címbalos eram instrumentos musicais feitos de metal que produziam sons  alegres e eram usados nas liturgias. São Paulo ao lembrar destes instrumentos, quer fazer referência ao barulho causado pelas disputas entre os membros da comunidade de Corinto.

Deste modo, Paulo vai fazendo um elogio à caridade, enaltecendo suas virtudes: A caridade é paciente, bondosa, altruísta, modesta, tudo perdoa, não tem vaidades, procura fazer a justiça…  Todas os demais carismas passarão (profecias, dom das línguas, ciência…) mas a caridade permanecerá, pois o próprio Deus é a caridade. Deus é amor.

A primazia da caridade que São Paulo deixou registrada em sua carta aos coríntios  é uma ideia que está presente no pensamento e no coração de Santa Teresa. Tudo o que ela ensinou aos demais em seu caminho de oração, bem como toda a sua espiritualidade fundamentam-se na vivência da caridade: amor a Deus e aos irmãos. Assim ela escreveu no Livro das Moradas: “A verdadeira perfeição consiste em amar a Deus e ao próximo. Quanto mais fielmente guardarmos estes dois mandamentos, tanto mais perfeita(os) seremos”. (1M 2,17) e mais adiante no mesmo livro ela diz: “Aqui, (no Carmelo) só duas coisas nos pede o Senhor: amor a Sua Majestade e ao próximo. É nisso que devemos nos empenhar. Seguindo a estes mandamentos com a maior perfeição, fazemos a vontade do Senhor e assim nos unimos a Ele”. (5M, 3,7)

Para Teresa de Jesus, o amor a Deus não é algo intimista e alienante, mas deve ser manifestado  por escolhas concretas e gestos decididos e marcados pela determinação humana. “Aqueles que de verdade amam a Deus, amam tudo o que é bom, desejam tudo o que é bom, estimulam tudo o que é bom, louvam tudo o que é bom. Busca unir-se aos bons, favorecendo-os e defendendo-os, não amam outra coisa a não ser a verdade e as coisas que são verdadeiramente dignas de amor. Quem ama a Deus, pode também alimentar vaidades? Certamente não. Tampouco pode desejar riquezas, coisas do mundo, prazeres, honras ou envolver-se em brigas ou invejas”. (C 40,3)

Precisamos fazer a distinção entre amar e gostar. Para muitas pessoas amar e gostar é a mesma coisa. Na verdade existem diferenças. Boa parte das pessoas reduzem o amor a mero sentimento. Sentimentos passam,,, o amor não passa. Portanto , para nós cristãos o amor não um simples sentimento de afeto que nutrimos por alguém. Os sentimentos independem da nossa vontade, não temos domínio sobre eles. Já o amor envolve uma decisão livre da pessoa. Eu quero e vou amar.  Eu não escolho de quem vou gostar, mas posso escolher quem vou amar. E por isso Deus pode nos pedir que nos amemos. Porque podemos livremente fazer escolha sobre isso.  No que diz respeito aos sentimentos, se não os controlamos e não temos domínio sobre eles, o Senhor não pode exigir que gostemos ou não de alguém. No entanto, se nos esforçamos por amar uma pessoa, não será impossível gostar dela também.

Frei Marcos Matsubara

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