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CARTA DO PREPÓSITO GERAL À ORDEM POR OCASIÃO DA CANONIZAÇÃO DA BEATA ELISABETH DA TRINDADE

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Caríssimos irmãos e irmãs no Carmelo,
À distância de um ano da canonização do casal Martin, preparamo-nos para celebrar
outro acontecimento de graça que nos enche de alegria. No próximo dia 16 de
outubro, à distância de 110 anos de seu nascimento, nossa irmã Elisabeth Catez
será inscrita no cânon dos santos da Igreja, entrando a fazer parte, a título pleno, da
grande e gloriosa família dos santos do Carmelo.
São muitos os motivos para agradecer ao Senhor e refletir sobre o significado que
esse evento pode ter no caminho que nossa Ordem está fazendo. O rico e
estimulante ensinamento que o Papa Francisco propõe com suas palavras e
iniciativas – penso na encíclica Laudato si’ e no Ano Jubilar da Misericórdia – pode
ajudar-nos a entender alguns aspectos da atualidade do testemunho e do magistério
espiritual dessa nossa insigne irmã, tão amada e apreciada nos ambientes
espirituais, mas ainda pouco conhecida da maior parte dos fiéis. No entanto, sua
vida de jovem alegre, sensível, fascinante, talentosa, generosamente empenhada na
vida eclesial, ligada à família, afetivamente exuberante e capaz de amizade, amante
da beleza e – junto a tudo isso – conquistada e polarizada pelo mistério da Trindade
que Jesus Cristo nos comunicou, deveria torná-la interessante!
Elisabeth pode ajudar-nos a chegar à fonte abundante e sempre fresca da Trindade,
que dá vitalidade, significado, perseverança alegre à nossa consagração e missão.
Ela oferece a todos um exemplo estimulante de como a imersão no mistério da vida
divina permite realizar-se em plenitude.
Nesta carta quero propor-lhes algumas chaves para reler os escritos de Elisabeth, a
fim de perceber a atualidade destes, tendo presentes alguns fenômenos
contraditórios do tempo que estamos vivendo: a fragmentação do eu, sempre menos
capaz de individuar-se em relações boas, porque confuso e desanimado; a ânsia de
tornar-nos presentes para sentir-nos vivos, através de uma visibilidade midiática que
não consegue, porém, tornar-nos presentes a nós mesmos; o frenético e rumoroso
preenchimento do tempo com atividades que nos ocupam e agitam e nos tiram o
tempo para escutar, sentir e refletir em profundidade; o uso da beleza e a
estetização seletiva da realidade para fins de consumo, que rejeita a gratuidade,
impedindo perceber a beleza ínsita às coisas e deturpando a natureza; o sentimento
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difuso de estar à beira do abismo, à mercê de forças desconhecidas e
ingovernáveis, que tornam vão todo esforço de bem em um mundo sempre mais
marcado por violência, miséria e precariedade, sem a possibilidade de um resultado
de paz; o sofrimento e a morte vividos como desgraça, enfatizados ou inutilmente
evitados por nossa cultura, que não consegue reconhecer o valor destes. Como unificar a nossa vida?
Um fio condutor une a experiência de Elisabeth desde quando era criança até
quando – ainda jovem, mas já amadurecida – sobrevier a morte: a intuição de que a
única coisa importante é “viver por amor”. Encontra em Jesus, crucificado por amor
(cf. C 133), o Deus que é capaz de vencer seu temperamento impetuoso e colérico e
empolgar seu coração sensível e sedento de beleza. N’Ele vê e toca um amor
apaixonado e apaixonante, que a conquista e a faz decidir, em tenra idade, ser toda
sua. É o contato que se dará no mais belo dia de sua vida, o dia de sua primeira
Comunhão, “Em que Jesus fez em mim sua morada,/Em que Deus tomou posse de
meu coração,/Tanto e tão bem que desde essa hora,/Desde esse colóquio
misterioso,/Não aspirava senão a dar a minha vida,/A devolver um pouco de seu
grande amor/Ao Bem-Amado da Eucaristia,/Que repousava em meu fraco
coração,/Inundando-o de todos os seus favores” (P 47).
As dificuldades que deve enfrentar em seu processo de amadurecimento – como o
contraste entre o desejo de entrar no Carmelo e a oposição da mãe, a quem tanto
ama; querer permanecer recolhida em intimidade com Jesus e participar em festas
dançantes, onde jovens fascinados por sua beleza demonstravam interesse por ela;
sentir-se chamada à solidão, que exige desapego e separação, e estar envolvida em
tantas atividades artísticas e sociais; dar todo o coração a Deus e, ao mesmo tempo,
ser disponível e afeiçoada às suas amigas – encontram sua solução na atração que
exerce sobre ela “o grande amor” de Cristo, que resplandece na Cruz, lenho capaz
“de atear na alma o fogo do amor” (C 116).
Entre as citações mais amadas por Elisabeth está o incipit do hino da carta aos
Efésios, onde São Paulo anuncia o destino glorioso do homem, dizendo que fomos
pensados, abençoados e predestinados desde a eternidade “para ser santos e
imaculados diante d’Ele, no amor” (Ef 1, 4). Por isso, “a alma que discute com o seu
eu, que se ocupa com as próprias sensibilidades, que segue um pensamento inútil,
um desejo vão, dispersa as forças e não está toda voltada para Deus” (Último retiro,
3). Tudo que não é feito por Deus é nada (cf. C 285), esvazia ao invés de preencher,
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dispersa ao invés de reunir. Não é a atividade que dispersa, mas o fato de não crer
“que um Ser, chamado Amor, habita em nós” (C 284), de não estar unidos ao Ser
que nos ama, ao Pai que, em Cristo, nos espera em sua casa e com Seu Espírito
nos sustenta no caminho.
O grande ato da fé – recorda-nos Elisabeth, fazendo eco ao evangelista João – é
acreditar no imenso amor que Deus tem por nós (cf. O Céu na fé, 20). A unificação
da pessoa se dá, pois, pelo poder do ato de fé e reverbera na sensibilidade.
Portanto, para crescer harmonicamente, curar as feridas da vida e amadurecer como
pessoa, não se deve ter como objetivo o cuidado do próprio eu ou a superação da
própria debilidade, mas antes sair de nós mesmos, deixar o próprio eu (cf. Último
Retiro, 26) em uma vantajosa troca com o eu de Cristo, que “quer consumir nossa
vida para mudá-la na sua: a nossa, cheia de vícios; a sua, cheia de graça e de
glória, totalmente preparada para nós, com a única condição de nos renunciarmos a
nós mesmos” (O Céu na fé, 18).
O segredo é, então, reconhecer o quanto somos amados, fixando os olhos no
Mestre que veio acender o fogo do amor e quer vê-lo arder em seus discípulos, para
que se espalhe visivelmente em todo o mundo. O amor divino é de tal modo
excessivo e sem medidas que arrasta a alma que o permite, tornando-a constante,
não mais sujeita aos solavancos imprevisíveis e inevitáveis da vida, “porque vê o
Invisível” e “não se detém mais nos gostos e nos sentimentos”; acontece
verdadeiramente que “mais a alma é provada, mais aumenta a sua fé, porque
transpõe, por assim dizer, todos os obstáculos para ir repousar no seio do amor
infinito cujas obras só podem ser de amor” (O Céu na fé, 20). Aliás, essa é a
experiência humana do Filho enviado pelo Pai à terra e acolhido pela humilde Mãe;
esse é o anseio inscrito no ser de cada homem; essa é a graça do batismo que, por
tal razão, constitui um novo nascimento, uma iluminação permanente para quem faz
memória dele; é o início da vida eterna (cf. O Céu na fé, 2).
Para ela, a imaturidade tem como raiz a indecisão a respeito da união com Deus, o
permanecer centrados em nós mesmos e não escolher o amor. A ação com que
Deus nos transforma e unifica é um fenômeno quase físico, uma consumação do
amor-próprio, do medo do sofrimento, dos vícios, da aversão a Deus, o qual nos
pede que entreguemos a nossa vontade para ser enxertados no amor, a “dupla
corrente entre Aquele que é e aquela que não é”. A miséria, lugar abençoado pela misericórdia
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Se quisermos tornar-nos – com nossa consagração e nosso trabalho – sinal eficaz
do agir do Pai, “somos chamados a ter os olhos fixos na misericórdia” (Misericordiae
vultus, 3). Com frequência, uma pergunta – quer a formulemos, quer permaneça
implícita – envolve nossa mente e nos torna estéreis, enfraquecendo nossas
energias e tirando-nos o entusiasmo: o que faço com minha fraqueza? Como seria
melhor que ela não existisse, quem me dera ser mais forte; se fosse inatacável,
quantos problemas a menos… e o ideal torna-se inatingível! Desse modo, o
caminho do desânimo e da frustração está pronto diante de nós.
Elisabeth – como também o Papa Francisco – raciocina de modo completamente
diferente quando, contemplando o mistério da Paixão de Jesus, diz que só se pode
conhecer a força da ternura aceitando entrar em contato com a existência concreta
dos outros, sem guardar distância do drama humano, tocando a carne sofredora de
nós mesmos e dos outros (Evangelii gaudium, 269-270). Falando à irmã Guita,
nossa santa sugere-lhe apagar do seu vocabulário a palavra desânimo: mais se
sente a fraqueza e o Senhor parece escondido, mais deve alegrar-se, recordando
que “o abismo da tua miséria atrai o abismo da Sua misericórdia” (C 252). A
interioridade é abissal porque nela habita Deus, que imutavelmente nos ama, que é
um abismo de amor que possuímos em nós (cf. C 249).
Se usarmos a luz da fé, encontramos a confiança e o amor, que nos permitem
descer às profundezas de nós mesmos em vez de permanecermos parados na
superfície encrespada do mar da vida. Assim fazemos experiência do abismo que é
Deus – indissociavelmente ligado ao nosso ser – e, tendo atingido o fundo, “aí se
dará o encontro divino; é aí que o abismo de nosso nada, de nossa miséria,
encontrar-se-á face a face com o Abismo da misericórdia, da imensidade, do tudo de
Deus” (O Céu na fé, 4).
Somente reconhecendo essa verdade, que é o coração da mensagem do
Evangelho, é possível reconhecer “Deus sob o véu da humanidade” (Último retiro, 4)
e escutar sua palavra no presente. Se quisermos encontrar a paz, devemos prostrarnos e lançar-nos no “abismo do nosso nada”: daí nascerá a adoração, “o êxtase de
amor” (Último retiro, 21). Daqui deriva a confiança: o medo da própria fraqueza
desaparece, porque “o Forte está em mim e a sua virtude é onipotente; ela opera,
diz o Apóstolo, muito além do que podemos esperar” (C 266).
Quanta esperança é possível ter se verdadeiramente “a alma mais fraca, mesmo a
mais culpada, é a que tem mais direito de confiar” (C 217), porque “sua missão
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consiste em perdoar” (C 123). Devemos ver o nosso nada, a nossa miséria e
impotência, reconhecendo serenamente que não somos capazes de progresso e
perseverança e colocando-nos diante da misericórdia do Mestre (cf. O Céu na fé,
12). Desse modo podemos encontrar a liberdade e a paz que são a expressão da
reconciliação conosco mesmos em Cristo – “Ele está em mim, sou seu
santuário,/Oh, não é em verdade a ‘visão de paz’?” (P 88) –, desejando que Ele
cresça em nós e, através desse processo de crescimento, seja conhecido pelos
homens. Logo, a santidade está verdadeiramente ao alcance da mão, porque se
encontra em um movimento de descida, não de elevação: “O Todo-poderoso tem
necessidade de descer/Para espalhar as ondas de seu amor./Ele procura um
coração que queira compreendê-lo,/E é nele que fixa sua morada./[…] ‘Olha-me, tu
poderás melhor compreender/O dom de si, o aniquilamento./Para me exaltar, tu
deves sempre descer,/Que teu repouso seja no aniquilamento./É lá sempre que se
dá o encontro” (P 91). A Eucaristia é o Tudo da Trindade que nos invade
O mistério da Santíssima Trindade é o abismo no qual Elisabeth, perdendo-se, se
encontra (cf. C 56). É “uma Imensidade transbordante de amor”, que embebe e
vivifica todas as fibras do ser, que se infunde na alma à medida que a pessoa chega
à graça batismal com a fé e se conforma progressivamente a Cristo. O horizonte da
realidade se dilata sempre mais (cf. C 83) e tudo se ilumina, porque Cristo introduz
nas profundezas da alma, “naqueles abismos nos quais só se vive d’Ele”, fazendo
participar do seu olhar, dos seus sentimentos, do seu coração: “Ele fascina, Ele
arrebata. Sob seu olhar, o horizonte se torna tão belo, tão vasto, tão luminoso!…” (C
109). A Trindade não é uma verdade abstrata e complicada, mas a vida dos Três –
assim os chama –, que em sua feliz comunhão criam o mundo e a humanidade,
envolvendo-os no esplendor do Amor, da Luz e da Vida. Deus é o Pai, seu Filho e o
seu Espírito: “a nossa casa, a nossa intimidade, a casa paterna da qual não
devemos sair nunca” (O Céu na fé, 2).
Na lógica da fé, raízes e consequências existenciais do ser cristão estão
intimamente conexos: viver na fé, conhecer o amor de Cristo crucificado por nós,
habitar em uma luz que torna belos também os momentos mais dolorosos da vida,
ser transformados pelo Espírito – como aconteceu em Maria –, viver inabitados pela
Trindade, encontrar a paz do Céu na terra são, para Elisabeth, sinônimos.
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A Eucaristia é a chave dessa visão luminosa e profética da vida. Na experiência de
Elisabeth desde o dia de sua primeira Comunhão, a comunhão sacramental com
Jesus e a adoração prolongada da sua constante doação a nós – visibilizada na
hóstia consagrada – serão a fonte de experiência, a porta de acesso, o lugar de
confluência de todas as iluminações e graças que receberá em sua breve e intensa
vida. Entrando na capela enquanto o Santíssimo Sacramento está exposto, parecelhe “que está se entreabrindo o Céu; e, na realidade, é isso mesmo, pois aquele que
adoro na fé é o mesmo que os bem-aventurados contemplam face a face!” (C 114).
“Nada nos manifesta tanto o amor que está no coração de Deus como a Eucaristia.
É a união consumada, é Ele em nós e nós n’Ele; e não lhe parece que isso é o Céu
na terra? O Céu na fé, enquanto se espera a visão beatífica face a face”. A espera
desse encontro faz com que “tudo desapareça e temos a impressão de que já
penetramos no mistério de Deus!” (C 138). Na Eucaristia, a realidade do Céu se
torna presente, comunicada e personalizada pelo Espírito para cada alma, porque o
Céu é “o que o Espírito Santo cria em teu coração” (C 210). A Eucaristia é uma
realidade de tal modo vital que Elisabeth empenhou-se para atingir o objetivo de ser
digna de receber diariamente a Comunhão eucarística (em um tempo em que essa
não era uma prática habitual): “Então, meu Deus, terei realizado todos os meus
desejos: receber-Vos todos os dias e, entre uma Comunhão e outra, viver em união
convosco, em intimidade convosco. Oh! Este é o Céu na terra!” (Diário). Como São
Francisco, Elisabeth considera a Eucaristia em estreita conexão com o Natal, do
qual emana a luz esplêndida que torna visível aos nossos olhos o admirável Mistério
da Encarnação, início do cumprimento da salvação e da glorificação da humanidade
por meio da efusão da caridade e da união íntima com Deus, que se realiza no
coração do homem mediante a fé (cf. P 75, 86, 88, 91).
Nessa íntima transfusão de amor, a experiência humana muda radicalmente. O que
podemos descobrir e “tocar com a mão” – a respeito de nós, de Deus, dos outros, da
realidade – comungando com plena confiança do mistério da fé?
1) Na verdade, somos uma humanidade de acréscimo. Se pensarmos um
momento no peso sempre maior que tem – em nossas relações, na formação da
opinião pública, no crescimento dos jovens – a visibilidade da própria imagem e o
tornar-se “disponíveis” através dos registros públicos da própria cotidianidade,
mostrando querer ser “para os outros”, damo-nos conta de quão diferente sejam o
discurso e a experiência pessoal de Elisabeth. Para ela, não há possibilidade de
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sermos verdadeiramente nós mesmos e tornar-nos presentes ao outro, de maneira
real e não efêmera, senão colocando-nos na profundidade em que encontramos
nossa imagem humana na pessoa divina de Cristo, imagem visível do Pai.
Quando o homem não se reconhece ou não é reconhecido como espaço de
comunicação pessoal, não representa – e, portanto, não vale – mais nada. Ao
contrário, abrindo-se às luzes da fé, a pessoa “descobre o seu Deus presente,
vivente nela; por sua vez, ela permanece presente n’Ele, na santa simplicidade, e
Ele a custodia com zelo ciumento” (Último retiro, 5). Tudo se torna precioso se
descobrimos essa intimidade invisível e procuramos conectar nossa experiência
humana com a sua, fixando o olhar nos mistérios da sua vida, procurando intuir seus
sentimentos, os quais emergem dos Evangelhos, para fazê-los nossos: “Parece-me
que seria necessário aproximar-se muito do Mestre, permanecer em íntima
comunhão com sua alma, identificar-se em tudo com os seus sentimentos para
depois cumprir como Ele a vontade do Pai” (C 133). O valor de nossas cotações
interiores alcançaria as estrelas, tornando-se, por identificação interior, “o
sacramento de Cristo”; em toda expressão da nossa existência – alegre ou triste, de
força ou de fraqueza – poderemos “dar o nosso Deus todo santo, o Deus crucificado
todo amor”. Isso implica “deixar-se transformar em uma mesma imagem com Ele”
por meio da “fé, que contempla e ora incessantemente; da vontade, tornada
prisioneira e que não volta atrás; do coração verdadeiro, puro, que estremece sob a
bênção do Mestre” (Notas íntimas 14). Essa mística paulino-carmelitana supera a vã
tentativa de encontrar a si mesmo no reconhecimento dos outros, aos quais
expomos nossa exterioridade e nossos serviços; encontramos a nós mesmos e ao
outro procurando o Outro, contemplando-nos com a consciência de que somos –
todos nós – à imagem de Cristo: “Que eu seja para Ele uma humanidade de
acréscimo na qual Ele renove todo o seu Mistério. E Vós, ó Pai, inclinai-vos sobre
vossa pobre pequena criatura, ‘cobri-a com vossa sombra’ (cf. Mt 17, 5) e não vede
nela senão o ‘Dileto no qual pusestes todas as vossas complacências’” (Notas
íntimas 15).
2) Tornar-se pessoas de comunhão, que O irradiam. Toda pessoa traz em si
aqueles que deixaram uma marca em sua vida: as pessoas que a geraram, que
contribuíram para sua formação, que estiveram ao seu lado nos momentos cruciais
da vida. Encontrando-nos, encontramos e comunicamos também algo das pessoas
que trazemos em nosso ser.
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O sublime mistério da “nova encarnação”, que se realiza na alma quando esta se
deixa amar pelo Crucificado até o fundo de sua própria miséria, amando-O, por
nossa vez, por gratidão “até a exaustão”, é o “não sou mais eu que vivo, é Ele que
vive em mim” (P 75), que permite irradiar o Amor encarnado em Cristo (cf. Notas
íntimas 15). A comunhão, que todos os homens de boa vontade procuram construir
e que é sempre mais ferida e ofendida em nossa época, pode ser realizada somente
à medida que se realizar a vontade divina de “restaurar todas as coisas em Cristo”.
O caminho está indicado e Elisabeth o descreve deste modo: “Contemplemos a
imagem adorada, permaneçamos incessantemente sob a luz que dela emana, para
que imprima-se em nós; depois, executemos todas as coisas com as mesmas
disposições com que as faria nosso Mestre santo” (O Céu na fé, 27).
Amor a Cristo, à Igreja e aos homens caminham juntos e sustentam-se
reciprocamente. Identificar-se com Cristo para ter “a alma cheia da sua alma, cheia
da sua oração, todo o ser capturado e doado” e “entrar em todas as suas alegrias,
partilhar todas as suas tristezas” nos faz “ser fecundos, corredentores, gerar as
almas à graça, multiplicar os filhos adotivos do Pai, os resgatados por Cristo, os
coerdeiros da sua glória” (Notas íntimas 13). Dar glória a Deus é tornar visível Cristo
– a sua vida – em nossa existência. Aqui se revela que a inconstância e a fraqueza
da oração são proporcionais ao fato de que não estamos conscientes dessa
vocação, que é a nossa identidade: “Estarei em comunhão convosco por Aquele que
é um fogo consumidor, para que a transforme sempre mais n’Ele mesmo, para que
possais render-lhe toda a glória”. Com efeito, a alma, ao contato com o Espírito
Santo, “tornar-se-á como uma chama de amor que se espalha em todos os
membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja” (C 220). Somente assim, “Por nossa
generosidade/Ajudaremos a Santa Igreja/E ver-se-á reinar o amor,/Antegozo da vida
divina” (P 94); “Viver de amor, ou viver de sua vida,/É o que faz de nós
apóstolos./Tão grande é a força de uma alma invadida,/Creio, que ela obtém tudo”
(P 77).
3) Viver o sofrimento como bênção. É verdade que não fomos criados para
sofrer, mas para ser felizes; não para morrer, mas para viver. E devemos
acrescentar: não para possuir-nos egoisticamente, mas para dar-nos
generosamente. Por trás do medo e da recusa do sofrimento, pode-se encontrar um
fechamento, uma solidão profunda, o ídolo da beleza física e da eficiência, o
orgulho; em última análise, a falta de uma experiência abissal – como diria Elisabeth
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– do amor divino-humano. Elisabeth o viveu, mergulhou nele e se deixou arrastar a
ponto de pedi-lo para si e para as pessoas queridas nos seus colóquios íntimos com
os Três.
Termos que, apenas nomeados, evocam sentimentos de tristeza, nos enchem de
suspeitas e não nos agradam – tais como vítima, sacrifício, imolação, negação,
esquecimento de si – são os únicos que delineiam na Escritura e na experiência
espiritual a necessidade da Páscoa e a verdade do amor por alguém. Elisabeth o
sabia bem e, por isso, dizia: “Peçamos-lhe que nos torne sinceros no nosso amor,
isto é, que nos transforme em vítimas de sacrifício, porque, ao que me parece, o
sacrifício não é senão o amor posto em prática” (C 220). É, por isso, fonte de
felicidade pensar “que o Pai me predestinou a ser conforme ao seu Filho crucificado”
(C 276).
A Eucaristia é sacramento de comunhão, banquete do Céu, festim jubiloso porque
alguém se imolou, sacrificou, deixou-se aniquilar por nós. Podemos, então, perceber
a centralidade teológico-espiritual de expressões como as seguintes e a beleza da
perspectiva eucarística que se abre: “Mestre adorado, procurais uma hóstia/E
quereis em vossa caridade/Perpetuar para sempre vossa vida,/Encarnando-Vos
entre a humanidade,/Porque sonhais que subam ao Pai/O sacrifício e a adoração” (P
91).
A paz e o repouso não nascem da ausência de problemas e sofrimentos, mas
quando se “sabe apreciar a felicidade do sofrimento e vê-la como a revelação do
‘imenso amor’ (Ef 2, 4) do qual fala São Paulo”; se “a dor é a revelação do amor”,
torna-se preciosa e bendita e pode tornar-se “a minha residência predileta, é lá que
encontro a paz e o repouso, lá estou segura de encontrar o meu Mestre e
permanecer com Ele” (C 271). Por isso, um cristão não deveria ter outro ideal que
“ser transformado em Jesus crucificado” (C 272): descobrindo que Cristo habita na
dor, receberia força nos acontecimentos dolorosos e frustrantes da vida. Portanto, à
luz da eternidade, sacrifícios, lutas, misérias são motivos de alegria, não de tristeza
(cf. O Céu na fé, 30); o segredo é aprender a refugiar-se sempre “na oração do
Mestre; na cruz Ele te via, rezava por ti, e essa oração é eternamente viva e
presente diante do Pai e te salvará de tua miséria” (C 276).
O sofrimento, como “prova” da falta de amor, torna-se “eco” do amor divino que faz
todos os esforços para entrar no coração e contagiar a humanidade. Na enfermidade
mais dolorosa nos torna sinal de esperança para quem está ao nosso lado e para
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quem sofre sem esperar, se a vivemos como o mistério de Cristo morto e
ressuscitado que celebra a sua Missa com o discípulo (cf. C 261).
4) O tempo é resgatado. A luz da eternidade dá a justa perspectiva sobre a
realidade porque, dando à vida o sentido de uma origem e de um fim bons, coloca-a
dentro de um processo no qual os acontecimentos isolados são relativizados e
resgatados de uma absolutização que os faria desmoronar, sobrecarregando-os de
expectativas. Ao mesmo tempo, a plenitude do ser pessoal é preparada por todas as
escolhas que fazemos, as ações que realizamos, as palavras que dizemos: “a vida é
uma coisa tão séria: cada minuto nos foi dado para ‘enraizar-nos’ mais em Deus” (C
266 ) e chegar a assemelhar-nos na vida ao modelo divino em uma união sempre
mais íntima com Ele.
A Trindade “deseja que, onde estiver, estejamos também nós, não só durante a
eternidade, mas desde esta vida, que é a eternidade começada e sempre em
progresso” (O Céu na fé, 1). O que fazer para que esse processo aconteça em nós?
O segredo é “esquecer-se, abandonar-se, não fazer caso de si, contemplar o
Mestre, olhar somente para Ele, receber de igual modo, como diretamente
proveniente do seu amor, a alegria ou a dor” (C 266).
Nessa dimensão contemplativa, torna-se possível ler os acontecimentos, dos
menores aos maiores, como expressão da vontade do Pai – como fez Cristo –, de
modo que, para aquele que crê, “toda circunstância, todo acontecimento, todo
sofrimento como toda alegria é um sacramento” (O Céu na fé, 10). Em tudo é
possível comunicar-se com Ele, a realidade torna-se significativa, os acontecimentos
se conectam, os pontos soltos se juntam, deixando entrever uma trama bela,
sensata, conveniente para o próprio crescimento humano. Se o Verbo eterno entrou
na realidade e está de algum modo unido a todo homem, então “Através de tudo
posso, desde esta terra,/Contemplá-lo à luz da fé/[…] unir-me a Ele, tocá-lo com a fé”
(P 91).
Elisabeth o tinha compreendido na longa espera de entrar no mosteiro, que
favoreceu uma interiorização do lugar da contemplação e da união com Deus, até
vivê-la nas circunstâncias mundanas, concentrando-se no essencial da vocação e
do testemunho cristão: as realidades da fé, a concretude da vontade divina, a
presença de Deus no meio dos acontecimentos diários.
Não é mais possível experimentar que “não há tempo suficiente”, ou seja, fazer a
experiência de que aquilo que fazemos nos tira vida, porque não encontramos aí um
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sentido ou porque representa uma fuga de nós mesmos. A fé, desde que não a
domestiquemos, nos mantém despertos, atentos a perceber as graças de Deus que
vêm ao nosso encontro todos os dias, recolhidos “à luz da sua palavra criadora,
naquela fé ‘no excesso do seu amor’ (Ef 2, 4) que permite a Deus cumular a alma
‘segundo a sua plenitude’ (Ef 3, 19)” (O Céu na fé, 34).
5) Viver “dentro”, gratos e conectados com a vida verdadeira. A santidade é viver
“em contato com Ele no fundo do abismo sem fundo, dentro” (O Céu na fé, 32).
“Dentro” é a expressão que resume o carisma e a missão eterna de Elisabeth da
Trindade: viver em relação com Deus, o mistério da Igreja, as relações de amizade,
as atividades, os trabalhos da vida, os acontecimentos da própria época,
conscientemente e tenazmente, dentro da estreita união com o Verbo encarnado,
crucificado e ressuscitado, que está se dando constantemente a toda criatura. Ao
abismar-se no Mistério da fé corresponde passar do próprio eu à margem do Eu
divino e a consequente dilatação do horizonte vital e do olhar; consolidar-se na fé é
a única coisa necessária de nossa vida, porque nos permite “agir somente sob a
grande luz de Deus, nunca segundo as impressões e a imaginação” (A grandeza de
nossa vocação, 11). É a experiência do Céu na terra, do realismo da vida divina na
comunhão dos santos, da realização sensível – já aqui, mesmo que não ainda em
plenitude – das palavras de verdade e de vida que a Revelação nos lega como
nossa luminosa herança de filhos de Deus.
Pedindo estar inteiramente presente na Trindade adorada, desperta na fé e
abandonada à sua ação criadora, Elisabeth deseja que “em cada minuto eu me
adentre mais na profundidade de vosso Mistério” (Nota íntima 15); viver “dentro”
significa apoiar totalmente o próprio ser na Trindade, “Deus todo amor”: essa
intimidade “foi o belo sol que iluminou a minha vida, fazendo dela um Céu
antecipado; é isso que hoje me sustenta no sofrimento” (C 266). Se permitimos à
infinita beleza imprimir-se em nós, é possível, também em um mundo onde “tudo
está contaminado”, ser pessoas “belas de sua beleza, luminosas de sua luz” (C
282), que crescem na gratidão e estão sempre na alegria dos filhos de Deus (cf. A
grandeza de nossa vocação, 12), capazes de captar um reflexo da sua beleza e do
seu amor na natureza e nas pessoas.
Uma sadia relação com as criaturas exige “reconhecer os próprios erros, pecados ou
negligências, arrepender-se de coração, mudar a partir de dentro” (Laudato si’, 218),
reconhecendo com gratidão que o mundo é um dom recebido das mãos do Pai.
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Esse reconhecimento leva a agir na gratuidade e no respeito, sem prepotência em
face de nenhuma realidade, conscientes de que todos os seres compõem uma
estupenda comunhão universal. O mundo “não se contempla a partir de fora, mas a
partir de dentro, reconhecendo os laços com os quais o Pai nos uniu a todos os
seres” (ivi, 220), certos de que “Cristo assumiu em si este mundo material e agora,
ressuscitado, permanece no íntimo de todo ser, circundando-o com o seu afeto e
penetrando-o com a sua luz” (ivi, 221). Graças aos sacramentos – em particular à
Eucaristia –, nos quais a natureza é assumida em Deus e transformada em
mediação, “somos convidados a abraçar o mundo sob um plano diverso” (ivi, 235)
daquele do proveito e da exploração. É extraordinária a sintonia entre o Papa
Francisco, que tem como objetivo lançar as bases de uma teologia integral, e
Elisabeth.
“O Senhor, no ponto máximo do mistério da Encarnação, quis atingir a nossa
intimidade através de um fragmento de matéria. Não do alto, mas a partir de dentro,
a fim de que no nosso próprio mundo pudéssemos encontrá-Lo. Na Eucaristia já
está realizada a plenitude, e é o centro vital do universo, o centro transbordante de
amor e de vida inexaurível. […] A Eucaristia une o Céu e a terra, abraça e penetra
todo o criado. O mundo, que saiu das mãos de Deus, retorna a Ele em alegre e
plena adoração” (ivi, 236). Maria, modelo da escuta que nos torna fecundos
“Recolhe-te, é em tua alma/Que o mistério se cumpriu./Jesus, Esplendor do Pai,/Em
ti se encarnou./Com a Virgem Mãe,/Estreita teu Bem-Amado,/Ele é teu” (P 86).
Maria é a criatura que não se pode narrar, mas somente contemplar, porque
penetrou de maneira única no mistério de Cristo; pode-se invocar sua ajuda,
aprender dela como custodiar o dom, colocando-se em suas mãos maternas: “Essa
Mãe de graça formará minha alma, para que sua filhinha seja uma imagem viva,
‘radiante’, do seu Primogênito, o Filho do Eterno, aquele que foi o perfeito louvor de
glória do seu Pai” (Último retiro, 2).
Nela tudo acontece no interior e ela é, por isso, o modelo do discípulo que se deixa
atingir e transformar pela Palavra viva do Pai, permanecendo dócil à ação criadora
do Espírito; como discípula de seu Filho, ensina-nos a adorar em silêncio, a sofrer e
ficar sob a cruz, para contribuir na obra da redenção; humilde, livre de si mesma,
esquecida de si, cheia de caridade e pronta a correr em ajuda, sempre recolhida
“dentro de si com o Verbo de Deus” (Último retiro, 40). Elisabeth tem uma admiração
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profunda pela Virgem Mãe, mostra admiração por sua humilde grandeza, que fez
abrir o Céu – ela que é o colo em que os Três puderam fazer morada em sua
criatura (cf. P 79): “Reflita sobre o que deve ter passado na alma da Virgem quando,
depois da Encarnação, possuía dentro de si o Verbo Encarnado, o Dom de Deus…
Em que silêncio, em que recolhimento, em que adoração não deve ela ter
submergido nas profundezas de sua alma para estreitar carinhosamente aquele
Deus de quem ela era Mãe” (C 152).
Maria é a testemunha intrépida de um grande evento, por força do silêncio que a
torna capaz de escutar em profundidade, que consente ao Espírito imprimir nela o
Filho eterno: ela nos ensina como preparar “em nossa alma uma morada muito
serena, na qual ressoe o cântico do amor, da ação de graças” (C 138); ensina-nos a
escutar: “Que eu esteja à tua escuta,/Sempre pacífica em minha fé,/Através de tudo
tua adoradora,/Aquela que só vive de ti” (P 88). A paixão de escutá-lo é gosto de
harmonia, capacidade de sintonia com a alma de Cristo, conscientes de que Ele
“tem tantas coisas a dizer-nos” (C 137). De fato, como Maria, também nós somos
“uma unidade” com o Senhor, que se dá a nós e permanece em nossa alma. Daqui
a exigência do silêncio, que é tão difícil de realizar, “para escutá-lo sempre e
penetrar sempre mais fundo no seu ser divino; identificada com Aquele que ama,
encontra-o em toda parte, vê-o brilhar em todas as coisas” (C 112). Na pessoa
nasce um louvor sem fim, uma adoração do dom de Deus que faz crescer a caridade
e a paixão de fazer conhecer Cristo, a ponto de “louvor de glória” tornar-se sua nova
identidade: “Um louvor de glória é uma alma que permanece em Deus, que o ama
com um amor puro e desinteressado, sem procurar a si mesma na doçura desse
amor; que o ama acima de todos os seus dons e mesmo que não os tivesse
recebido; […] é uma alma de silêncio, que se mantém como uma lira sob o toque
misterioso do Espírito Santo, para que ele faça sair dela harmonias divinas; […] é
uma alma que fixa Deus na fé e na simplicidade, é um espelho que reflete em tudo o
que ele é; é como um abismo sem fundo no qual ele pode espalhar-se, expandir-se;
[…] enfim, um louvor de glória está sempre ocupado na ação de graças. Todos os
seus atos, todos os seus movimentos, os seus pensamentos, as suas aspirações,
enquanto a enraízam mais profundamente no amor, são como um eco do ‘Sanctus’
eterno” (O Céu na fé, 43). Conclusão
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Elisabeth da Trindade é um dom precioso para nós e para a Igreja nesta época
marcada por crises de identidade, depressão, indiferença, cobiça desenfreada,
deturpação da natureza e manipulação do humano. Ela testemunha de maneira
forte, bela e convincente o realismo das verdades em que cremos e nos ajuda a
entender que, se não recuperamos a dimensão escatológica da nossa fé, esta perde
eficácia e torna-se inútil, sem garra e força transformadora.
Sabemos qual é sua missão, o que está fazendo, em que ponto nos pede para
colaborar, com amor ardente e reconhecido à Trindade: “No Céu a minha missão
será atrair as almas, ajudando-as a sair de si mesmas para aderir a Deus por um
movimento simples e amoroso, conservando-as naquele grande silêncio interior que
permite a Deus imprimir-se nelas e transformá-las em Si mesmo” (C 280).
Agradeçamos a Elisabeth pelas palavras escritas em sua última carta, que –
conhecendo também o seu coração – sabemos ser dirigidas também a nós: “Caro
irmãozinho, antes de voar para o Céu, tua Elisabeth quer expressar-te, mais uma
vez, o seu propósito de assistir-te todos os dias de tua vida, até que um dia te unas
a ela na eternidade. […] terás que sustentar lutas, encontrarás obstáculos na estrada
da vida; mas não desanimes. Invoca-me, para que te ajude! Sim, chama tua
irmãzinha em teu socorro. Assim, aumentarás a felicidade de seu paraíso. Ela se
sentirá feliz em ajudar-te a triunfar, a permanecer digno de Deus […] Quando estiver
junto do Senhor, recolhe-te em oração; e assim voltaremos a nos encontrar e
seremos felizes para sempre” (C 287)

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